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A área (cinza) de serviço

03.07.09

por Daniel Oliveira

Jean Charles

(Brasil/Reino Unido, 2009)

Dir.: Henrique Goldman
Elenco: Selton Mello, Vanessa Giácomo, Luís Miranda, Patrícia Armani, Maurício Varlotta, Sidney Magal, Daniel de Oliveira, Marcelo Soares

Princípio Ativo:
Mello, Giácomo & os brazucas

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É uma coragem irresponsável que leva brasileiros aos borbotões para países ao redor do mundo, dos quais eles não sabem a língua, a cultura nem o que esperar. Londres é um dos paradigmas dessa emigração. Milhares de tupiniquins vivem, em sua maioria ilegalmente, e trabalham em empregos que os ingleses se acham muito bons para desempenhar, sem mal saber falar “My name is”.

Retratar fiel e autenticamente essa realidade é o maior mérito de “Jean Charles”, co-produção anglo-brasileira sobre o mineiro do título, confundido com um terrorista e assassinado na Inglaterra em 2005. Se não o torna mais simpático, mostrar o protagonista (interpretado por um impecável Selton Mello) como um desses malandros brazucas, tentando viver do “jeitinho” num país de cultura totalmente avessa ao “jeitinho”, certamente faz dele mais humano e menos mártir.

A história segue a vida de Jean, um eletricista já estabelecido em Londres, a partir da chegada de sua prima Vivian (Giácomo), em busca de dinheiro para o tratamento da mãe diabética. A primeira cena do longa, em que a nova emigrante, sem saber uma linha de inglês, encara os agentes da imigração britânica, dá logo o tom seguido pelo diretor Henrique Goldman. “Jean Charles” mostra pessoas em um país estranho, frio, cinza, totalmente diferente do Brasil, onde elas são sempre tratadas como inferiores, não importa o grau de assimilação atingido.

Esse contexto, construído de forma semidocumental com a utilização de emigrantes brasileiros em alguns papéis, mais a atuação de Selton Mello e Vanessa Giácomo são os principais pilares do filme. São eles que carregam o longa durante seus dois primeiros atos e deixam em suspenso a expectativa para o desfecho, já conhecido, do assassinato.

E é nesse momento, crucial para o filme, que o diretor Henrique Goldman decepciona. O assassinato do protagonista, desde a cena dos tiros até os desdobramentos que encerram o longa, parece gritar por um diretor de mão mais firme, visão mais clara e que saiba dar a carga emocional necessária a um evento tão chocante.

Sem um diretor assim, “Jean Charles” se torna um retrato competente da identidade partida desses brasileiros, que não se encontram lá mas, financeiramente, não podem viver aqui, e o relato morno de um crime que abalou os padrões da Scotland Yard inglesa e emocionou o Brasil. O problema é que, com a expectativa criada pelo título, não há como não sair do cinema um pouco frustrado, desejando um pouco mais que os enquadramentos e a decupagem feijão com arroz de Goldman – um conjunto tão pungente quanto o coração que Selton dá ao protagonista.

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Selton/Jean: Foi apenas um sonhopesadelo.

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