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Tratado de paz

10.09.09

por Daniel Oliveira

Duas senhoras

(Dans la vie, França, 2007)

Dir.: Phillipe Faucon
Elenco: Ariane Jacquot, Zohra Mouffok, Sabrina Ben Abdallah, Hocine Nini, Philippe Faucon

Princípio Ativo:
Esther e Halima

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Há uma certa ingenuidade na realização de “Duas senhoras” que pode incomodar os mais formalistas. Cenas são prolongadas demais, com o corte demorando em acontecer. Atuações parecem quase instintivas e, por vezes, enunciam as falas como um discurso, e não um diálogo. O próprio texto não é nenhuma obra-prima da literatura, caminhando uma fina linha entre o discursivo e o simplista em vários momentos.

Mas é o tipo de filme com uma visão tão clara do que quer dizer, e com uma espontaneidade tão grande ao dizê-lo, que é quase impossível sair da sala insatisfeito. Sim, “Duas senhoras” é um filme com uma “mensagem”. Ou melhor, o longa em si é uma afirmação política. E isso só não é um desastre – pelo contrário, é uma esperança – graças às suas duas protagonistas.

Esther (Jacquot) é uma senhora judia paraplégica que demanda cuidados constantes. Seu temperamento forte espanta todas as enfermeiras até a chegada da muçulmana – pero no mucho - Sélima (Abdallah), com quem ela logo descobre uma afinidade. Quando a empregada de Esther é demitida, Sélima sugere que ela contrate sua mãe, Halima (Mouffok), muçulmana praticante, para a função.

O que parece um prato cheio para confrontos e metáforas políticas de intolerância e ódio ancestral acaba se tornando uma enorme amizade. Em suas personalidades fortes, e de certa maneira opostas, Esther e Halima trazem vida nova uma para a outra. Para a muçulmana, é a chance de experimentar a liberdade e a independência financeira que ela tanto admira na filha. Para a judia, é um sopro de vida e alegria bem-vindo, uma companhia que realmente preenche seu dia e com quem ela pode conversar.

“Duas senhoras” não tem um grande conflito. Há rusgas aqui e ali, mas não espere pelo “grande momento” em que o ódio e o drama vão separá-las para sempre. O filme busca exatamente o oposto. O diretor Philippe Faucon quer mostrar a possibilidade de coexistência e convivência, quando se tem a disposição para tanto. É uma analogia óbvia e um tanto simplista, mas que ganha vida na simpatia e na honestidade das atuações de Ariane Jacquot e Zohra Mouffok.

As duas logo engatam em conversas sobre a origem comum (outra metáfora óbvia, mas verdadeira), a Argélia, e sobre assuntos da idade em geral. São simplesmente duas senhoras que, como quaisquer outras, têm muito o que falar quando dispõem de tempo juntas – independente de religião, crenças etc. O longa quer mostrar que é melhor olhar para além do ódio e da diferença, em direção à semelhança, àquilo que nos une. E que o que pode parecer difícil é, na verdade, muito, muito simples. Impossível não se render.

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Halima e Esther: simples assim.

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