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Inferno de Friedman

14.10.09

por Daniel Oliveira

A doutrina do choque

(The shock doctrine, Reino Unido, 2009)

Dir.: Michael Winterbottom e Mat Whitecross

Princípio Ativo:
obrigatoriedade

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Lembra o velho e sábio ditado, “filho feio não tem pai”? No caso do neoliberalismo, é mentira. Se você quer culpar alguém por ter perdido o emprego, por seu salário ter diminuído – ou simplesmente porque seus planos de ser rico, jovem, bonito e mochilar pelo mundo foram frustrados pela hecatombe econômica planetária – o nome a ser amaldiçoado é Milton Friedman.

Ele foi o papa do grupo que elaborou as bases da teoria neoliberalista nos anos 60, conhecido como Garotos de Chicago, onde ficava a universidade em que a poção do mal foi cozinhada. “A doutrina do choque” é um documentário que adapta o livro homônimo da ativista política Naomi Klein, que conta essa história como um filme-catástrofe feio, deprimente, desagradável – e indispensável.

Friedman adaptou suas ideias das pesquisas psicológicas dos anos 50 que testavam o eletro choque em pacientes: o objetivo era anular a psique doente para reconstruir uma nova a partir do zero. Traduzido pelos Garotos de Chicago: arrasar a economia e o esqueleto político de um país, retirando os alicerces e o senso de narrativa histórica dos cidadãos, desnorteando-os de forma que eles aceitem mais docilmente uma “reconstrução” baseada no Estado mínimo, no corte de serviços sociais e no famigerado mercado livre.

Como aplicar essa ideia-monstro? Violência, sempre - o que Klein comprova com o histórico das experiências práticas do neoliberalismo, resultantes basicamente de três choques: o “choque da repressão” (ditaduras militares na América Latina dos anos 60); o “choque econômico” (a Rússia de Bóris Yeltsin pós-URSS); e o “choque da Guerra”, com Margaret Thatcher e a Guerra das Malvinas, ou sua reedição 2.0 com uma nova versão para o Estado mínimo - os EUA e suas “Guerras contra o Terror” que terceirizaram até mesmo o poder militar do governo.

O resultado do “search, destroy and rebuild” é conhecido: os responsáveis pela “reconstrução” ficaram mais e mais ricos, criando um precipício social entre eles e os pobres – numa estrutura econômica tão resistente quanto uma bolha, daquelas que nunca estouram.

Alternando entre falas de Klein, Friedman, economistas, arquivos de imprensa e uma narração 100% jornalística, “A doutrina do choque” é um documentário absolutamente convencional. O diretor (e ultra-liberal) Michael Winterbottom não quer que a forma tire qualquer atenção do conteúdo – uma transposição quase literal do livro, para os sem-tempo preguiçosos que, como eu, não o leram.

E funciona. É impossível tirar os olhos da tela durante os 80 minutos de projeção. É simples, eficiente e OBRIGATÓRIO. Por isso, a nota aí em cima.

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