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(Dicks) vigaristas & Penelope (charmosa)

26.10.09

por Daniel Oliveira

Vigaristas

(The brothers Bloom, EUA, 2008)

Dir.: Rian Johnson
Elenco: Adrien Brody, Rachel Weisz, Mark Ruffalo, Rinko Kikuchi, Robbie Coltrane, Maximillian Schell, Nora Zehetner

Princípio Ativo:
metalinguagem

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Stephen (Ruffalo)
é o realizador/cineasta, que elabora golpes como um autor cria obras de ficção. Um dos “irmãos Bloom” do título original, ele é o condutor da narrativa, o maestro que garante que todos os elementos atinjam, de forma verossímil e em uníssono, o grande objetivo: agradar...

Bloom (Brody),
seu irmão/público. Bloom é o sujeito na sala escura: inseguro demais para lidar com as imperfeições da vida cotidiana, ele busca na projeção dos personagens e aventuras ficcionais experienciar catarticamente as emoções castradas por seus medos. Os golpes são formas de Stephen dar ao irmão o que ele quer e é aí que entra...

Penelope (Weisz),
pura imprevisibilidade, beleza, encanto, aventura, diversão e sedução. A órfã milionária em que eles pretendem dar o último golpe é a própria magia do cinema. Como o apaixonado Bloom diz ao irmão, “ela parece um dos seus personagens”. Penelope é a “tempestade perfeita” só encontrada nos filmes, que passamos a vida inteira, miseráveis, buscando fora deles.

Rian Johnson, diretor deste “Vigaristas”, é um cineasta de referências. Só que, enquanto a dieta de Tarantino foi à base de produções B, Johnson se nutriu dos gêneros clássicos de Hollywood. “A ponta de um crime”, seu primeiro longa lançado direto em DVD no Brasil, é um noir – guiado por uma locução em off cínica, com personagens falando como detetives e prostitutas dos anos 40 - narrado em um colégio contemporâneo.

A realização de Johnson se baseia na estilização, nesse choque da transposição do gênero clássico para os dias de hoje. Não é diferente com “Vigaristas”, que emula as aventuras românticas típicas de Hitchcock, de quem Johnson pega emprestado o macguffin, os diálogos carregados de duplos sentidos e humor e os longos travellings e panorâmicas estabelecendo o cenário do espetáculo de Stephen.

Já os personagens são importados da literatura: Stephen e Bloom vêm do Ulysses de James Joyce; e Penelope é a esposa da “Odisséia” de Homero. E, numa coerência metalingüística, Stephen também é um realizador de referências: seus golpes se baseiam em obras literárias, em especial Dostoiévisky e os clássicos russos.

A salada só fica enjoativa no terço final, quando Johnson exagera nas reviravoltas e acaba perdendo a empatia do espectador – só recuperada nos minutos finais. Weisz é o tempero perfeito para a relação dos dois irmãos e sua mistura de sensualidade, humor e ingenuidade é a responsável por Penelope não se tornar cartunesca. Ela e Brody dão, respectivamente, alma e coração à estilização johnsoniana que, com uma aparadinha aqui e outra ali, promete – e muito – no futuro.

P.S.: Joseph Gordon-Levitt e Nora Zehetner, protagonistas de “A ponta de um crime”, fazem pontas logo no inicinho de “Vigaristas”. Pisque e perca (a dele então...)

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Não, Rachel Weisz nunca tinha visto o nariz de Adrien Brody de perto.

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