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Bend it like Cantona

24.11.09

por Daniel Oliveira

À procura de Eric

(Looking for Eric, Reino Unido/França/Itália/Bélgica/Espanha, 2009)

Dir.: Ken Loach
Elenco: Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop, Gerard Kearns, John Henshaw

Princípio Ativo:
auto-ajuda de craque

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Eric Cantona foi o jogador francês que ‘ressuscitou’ o Manchester United nos anos 90 com gols desconcertantes e títulos aos borbotões. Em 1995, ele foi suspenso por nove meses devido a uma voadora no peito de um torcedor que lhe insultou após uma expulsão. Eric voltou, jogou e, até hoje, os torcedores do clube inglês gritam seu nome.

Eric Bishop (Steve Evets, um nome-palíndromo) é o carteiro torcedor fanático do Manchester em “À procura de Eric. Ele abandonou a primeira esposa e a filha. Foi abandonado pela segunda, que lhe deixou dois enteados que não o respeitam. E percebe que, em algum momento, sua vida descarrilou e ele não sabe como recolocá-la nos trilhos.

Entra Eric Cantona. Após uma sessão de auto-ajuda com os colegas carteiros, Bishop passa a ter visões nas quais fuma e bebe com o ex-jogador, que lhe dá conselhos de como retomar as rédeas de sua existência. Famoso pelas tiradas filosóficas e frases de efeito, Cantona se torna o guru espiritual do carteiro, que vai mudando sua atitude e reconquistando as pessoas e o respeito perdidos pelo caminho.

E, sim, esse é um filme de Ken Loach. Mas se você procurar a atitude e politização usuais do diretor de “Ventos da liberdade” aqui, só vai encontrá-la, bem diluída e sutil, no retrato realista da pobreza e da violência da vizinhança de Bishop. No mais, “À procura de Eric” é quase um feel good movie, que aposta no poder que a inspiração - trazida por um jogador de futebol, um artista, um professor... – tem de mudar nossa vida.

E, sim, é meio que um filme de auto-ajuda. A fotografia de Barry Ackroyd, parceiro usual de Loach, começa bem escura, pouco iluminada e vai clareando e ganhando cores mais vivas à medida que Bishop recupera a auto-estima – representada por um sapato de camurça azul que ele usa ao final. A metáfora é tão rasa quanto verossímil e eficiente, assim como as filosofias de boteco de Cantona.

O roteiro de Paul Laverty, outro membro da trupe Loach, sofre de males bem mais problemáticos. A trama da gangue trazida pelo enteado mais velho, apesar de pungente, surge bem abrupta no meio do longa e só se segura pela boa atuação de Evets. E os amigos do protagonista são um monte de bonecos na torcida do Manchester, sem conflitos ou profundidade alguma.

Problemas que não atrapalham um filme simpático, que vai deixar um sorriso no rosto de quem abrir mão do cinismo. E se o seu cinismo é do tipo “jogador de futebol não é ator”, um drible desconcertante: além de craque e filósofo, Cantona também é ator. Já esteve até no “Elizabeth” com Cate Blanchett. Um muso inspirador pra ninguém botar defeito.

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Mudança = (inspiração + transpiração) x alucinação.

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