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Banquete, tempestade, festival.

23.01.10

por Daniel Oliveira

Aconteceu em Woodstock

(Taking Woodstock, EUA, 2009)

Dir.: Ang Lee
Elenco: Demetri Martin, Henry Goodman, Imelda Staunton, Emile Hirsch, Jonathan Groff, Mamie Gummer, Paul Dano, Kelli Garner, Jeff D Morgan

Princípio Ativo:
Woodstock, segundo Lee

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Quem for assistir a “Aconteceu em Woodstock” esperando um filme cool vai se decepcionar. Numa elipse que só um diretor do calibre de Ang Lee teria colhões para perpetuar, o longa não mostra um plano sequer da frente do palco, ou de um show. O cineasta se interessa pelo festival como uma reação química exógena: não o que Woodstock foi, e sim o que ele representou.

Para isso, ele conta a história de Elliot Tiber (Martin), o empreendedor cultural (insano) que, para salvar o hotel dos pais, levou o festival para sua cidade, Bethel, após ele ser expulso do local-título. (Não é lenda urbana: Woodstock não aconteceu em Woodstock).

O diretor taiwanês enxerga no festival a conjunção cósmica e explosiva dos temas que sempre dominaram sua cinematografia: o conflito entre repressão e liberação, o diálogo silencioso de gerações e a relação pais/filhos. E ele resume tudo isso em uma única cena.

Nela, Elliot (um gay enrustido), o pai Jake (Goodman) e o(a) segurança Vilma (Schreiber, num papel que só pode ser definido como uma fada) acabaram de expulsar caipiras-invasores-conservadores-protestantes. Correndo, eles acabam no lago dos fundos da propriedade, onde hippies tomam banho nus. O pai diz:

- É aqui que nós lavamos os lençóis.

Elliot olha para Jake, ao lado de Vilma, observando admirado os hippies nus. A música começa.

O pai: - Está ouvindo?
Elliot: - Começou.
O pai: - Vá. Vá ver o que é isso que eles estão fazendo.

Woodstock, segundo Lee: a tomada pela juventude de um mundo de velhos provincianos, que não veem outra opção que não ceder lugar aos novos donos. Nas mãos do diretor, a cena - que poderia ser uma apoteose melodramática e clichê do filme - é um diálogo potente, sutil e possível, entre pai e filho.

As mesmas mãos se mostram firmes no comando dos vários atores e figurantes em cena. A edição, nas telas divididas e cenas simultâneas, traduz o caos das várias coisas acontecendo descontroladamente e ao mesmo tempo (para o festival e para Elliot) e o espírito coletivo do evento.

A utilização do rock característico do festival é outro exemplo da sutileza de Lee, só dando as caras quando Woodstock começa a ganhar contornos reais. Ela se mostra um problema, porém, no humor do início do filme, em que o timing cômico do cineasta às vezes funciona e outras não. Outra falha é o veterano do Vietnã interpretado por Emile Hirsch, que soa forçado e deslocado do conjunto.

Defeitos que se tornam mínimos diante de um bom elenco, com destaque para Henry Goodman como o pai – a belíssima sequência final entre ele e o filho remete à cena do quarto em “Brokeback Mountain” e ao diálogo na praia em “Banquete de casamento” – e de uma visão tão clara. Para Lee, a transformação de Elliot “é tão a daquele lugar”: um potencial enorme e subestimado que, descoberto pelo mundo, foi capaz de mudá-lo.

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O (esplêndido) Goodman, Martin e Staunton: acredite você ou não, esses foram três dos principais responsáveis por Woodstock.

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