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Cinema eletrodoméstico

30.09.10

por Maíra Bueno

Reflexões de um liquidificador

(Brasil, 2010)

Direção: André Klotzel
Elenco: Ana Lúcia Torre, Selton Mello, Fabíula Nascimento, Germando Haiut, Aramis Trindade

Princípio Ativo:
Humor negro doméstico

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“Reflexões de um liquidificador” tem a interessante proposta de ser um retrato – caricatural e absurdo – do cotidiano de uma classe C paulistana, em geral pouco mostrada no nosso cinema. O filme capta uma rotina e um tempo marcados pelo incansável relógio, ou o gotejar da velha torneira – como diria o poeta, objetos que abafam “toda a existência da terra e do céu”.

O relato dessa existência,abafada ou exacerbada, é conduzido por um liquidificador antigo, trazido à casa de Elvira (a inspiradíssima Ana Lúcia Torre) e Onofre (Germano Haiut) depois que o casal fecha sua lanchonete. O Liquidificador (Selton Mello) avisa, já de saída, que é também testemunha: “máquina de moer e cúmplice”.

Logo acompanhamos o desalento de Elvira em busca do marido desaparecido, embora seja ela a primeira suspeita de ter cuidado do sumiço dele. O estranho detetive Fuinha (Aramis Trindade) fica na cola da protagonista e a relação dela com o liquidificador falante se intensifica. Nesse meio tempo, descobre-se que Elvira era taxidermista: empalhar bichos é, ao mesmo tempo, fonte extra de renda e passatempo.

“Reflexões” perde-se um pouco com a introdução de personagens desnecessários, como a vizinha boazuda e seu marido. A questão da taxidermia é um ponto cheio de potencial, mas pouquíssimo explorado, que acaba à deriva. O Liquidificador, por sua vez, é infantilizado em alguns momentos, como ao ver a cidade pela primeira vez ou aprender vocabulário. São cenas destoantes do resto do filme, que traz inegáveis ecos de Hitchcock e Tarantino.

Se o tempo é marcado pelo som dos objetos cênicos, também o afinado elenco incorpora esta sonoridade – seja Elvira tamborilando os dedos ou Onofre sorvendo a sopa. E, de maneira mais evidente, Fuinha e suas hilárias onomatopéias. Em “Reflexões”, não é muito claro quem é objeto, quem é “pessoa” – interessante inversão de papéis, ou funções. Klotzel cria um filme de sons e a música de Mário Manga ressalta o tom irônico do longa.

Em tempo: “Reflexões de um Liquidificador” traz uma nova proposta de lançamento e distribuição. Circulando com poucas cópias, ele pode ser visto em noites de “filme-evento”. Nelas, a projeção é precedida pela exibição de um curta-metragem local (em Belo Horizonte, a plateia assistiu a “Os filmes que não fiz”, de Gilberto Scarpa) e por um número de stand-up comedy (em BH, Geraldo Magela, o Ceguinho). Após a exibição, os dois diretores e a protagonista Ana Lúcia Torre se disponibilizam para um bate-papo com o público.

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