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Sem palavras

31.08.05

por Daniel Oliveira

Casa Vazia

(Bin-jip, Coréia do Sul, 2004)

Dir.: Kim Ki-Duk
Elenco: Seung-yeon Lee, Hyun-kioon Lee, Hyuk-ho Kwon, Jin-mo Ju

Princípio Ativo:
Ausência de diálogos desnecessários

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Sabe a história da Jacqueline? A da primeira música do CD do Franz Ferdinand, dos olhos que conhecem um rosto bonitinho e esquecem o seu próprio? Eles decidem que namorar é muito bom e trabalhar é só pra quando faltar dinheiro? Imagine essa música sem a letra. O som dos ferdinandos é tão bom que continua tão boa quanto, não é mesmo? Agora, pense em um filme de uma história assim. Se são os olhos que se entendem, não precisa de diálogo, precisa?

É exatamente esse o longa “Casa Vazia”, de Kim Ki-duk (Primavera, verão, outono, inverno e primavera). Tae-Suk tem um modo bem peculiar de viver: ele prega anúncios de restaurantes nas portas de residências, em determinada região. Depois de um tempo, ele volta e vê quais deles não foram retirados, indicando que o dono pode estar fora. Ele a invade (muito civilizadamente) e confere na secretária eletrônica se a pessoa está viajando ou trabalhando. Confirmada a hipótese, ele se aloja ali: come, toma banho, dorme, usa peças do guarda-roupa, lava suas cuecas, escuta música, vê TV.

Até que, em uma invasão, ele dá de cara com Sun-hwa, uma jovem que apanhou do marido e se tornou prisioneira dentro da própria casa. Ao contrário do que se espera, ela não se assusta e é ele quem sai correndo. Tae-suk, porém, volta, perturbado pelo rosto machucado de Sun-hwa, o marido aparece e ela acaba fugindo com o arrombador. Como ela o havia espionado quando ele invadiu sua casa, Sun-hwa aprende logo o estilo de vida do parceiro e se identifica com ele, sem questionar. Tae-suk sempre tira uma foto ao lado de um porta-retrato do dono da residência que invade. A cena em que Ju-hwan aparece ao lado dele para também estar na foto é impecavelmente engraçada.

E tudo isso sem um único diálogo entre os dois. Sun-hwa só diz uma frase bem no final do filme e são três palavras diretas e econômicas. O entendimento entre eles se dá pelo olhar e pela solidão mútua. O título do filme, “Casa vazia”, é uma metáfora da existência que levamos, mas que não é nossa. Seja Tae-suk habitando espaços que não são dele; seja Sun-hwa, em um casamento que ela não escolheu.

A direção do filme é precisa e detalhista, não deixando dúvidas quanto ao prêmio de melhor diretor, recebido em Veneza, em 2004. Ao final, quando Ki-duk ilustra a estratégia de redenção de seu protagonista, a câmera subjetiva é utilizada de forma funcional e hipnotizante. A ausência de diálogos não faz falta, pois você não tira os olhos da tela. E o final é poético e surpreendente. A segurança e o primor técnico do cineasta não dão espaço aos furos da história. Kim Ki-duk, ao lado de Chan-wook Park (Old boy), mostra que rock pode ser com o Reino Unido, mas no cinema, é a Coréia que tem dado um show.

Ela não parece muito com a mocinha do “Lost”?

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