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10 anos depois

04.10.05

por Gabriel Banaggia

Manderlay

(Dinamarca/Suécia/Países Baixos/França/Alemanha/EUA, 2005)

Dir.: Lars von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Willem Dafoe, Danny Glover

Princípio Ativo:
Neo-dogmatismo

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Ficar à altura de um filme como Dogville é tarefa das mais difíceis, em especial quando se trata de sua continuação. O mais recente filme de Lars von Trier, Manderlay, se passa exatamente após os acontecimentos do primeiro, e acompanhamos a nova tentativa de Grace, dessa vez vivida por Bryce Dallas Howard (de A vila), em corrigir as mazelas de outra pequena comunidade americana.

Enquanto em Dogville o tema principal eram as próprias relações interpessoais entre os habitantes da cidade, Manderlay aborda questão talvez mais polêmica, e bem familiar aos brasileiros: a escravidão. A pequena fazenda de algodão que dá nome ao filme fica no estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos, e, mesmo após a abolição da escravatura no país em 1865, permanece usando negros cativos como fonte de trabalho braçal até o ano em que se passa a história, 1933.

A estrutura do filme, idêntica à do primeiro filme, é a de uma história dividida em capítulos. Se na primeira película, contudo, Grace é uma refugiada, aqui a relação é em princípio inversa: ela está no comando da situação e fará tudo que estiver a seu alcance para garantir que a democracia se instaure em Manderlay. Analogia mais clara entre a personagem e o governo americano não poderia haver.

A linguagem, em comparação com Dogville, já aparece aqui com uma economia um pouco maior, havendo poucas cenas memoráveis em relação à ausência cenográfica proposital – vale mencionar tanto a remoção do Jardim da Senhora como Grace próxima à casa de banhos. O realismo do filme, por prescindir de paredes e outros adereços, é marcante. Lamenta-se a ausência da oposição noite-dia tão feliz no primeiro filme.

Apesar da história bem amarrada e da direção sempre vívida de Von Trier, Manderlay não consegue repetir a façanha de êxtase a que nos leva Dogville em sua conclusão. Trata-se mais de um filme para se assistir com um sorriso de canto de boca, aproveitando cada pequeno, porém excelente, momento prazeroso. A direção do dinamarquês permanece o grande trunfo do filme, observável não só nas atuações capazes como no posicionamento da câmera, ora trepidante, ora flanando pelas cenas.

É inevitável, ao término da película, não lamentar a ausência de Nicole Kidman. Apesar de Bryce fazer o possível para viver uma Grace tão forte quanto a de Dogville, ficar à sombra da veterana mostra-se tarefa demasiado árdua. Resta saber se a conclusão de trilogia de Von Trier marcará Manderlay como um ponto um pouco inferior em meio a uma obra-prima ou como o degrau intermediário na direção do declínio.

“Papai, depois da minha cena de sexo, entendi por que Nicole se recusou a continuar no papel...”

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