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Sertão mínimo

17.12.05

por Rodrigo Campanella

Cinema, Aspirinas e Urubus

(Brasil 2005)

Dir.: Marcelo Gomes
Elenco: Peter Ketnath, João Miguel, Fabiana Pirro

Princípio Ativo:
quente e frio

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“Dê duração ao tempo” Qualquer resenha sobre Cinema, Aspirinas e Urubus é, já de cara, incapaz de trazer à tona todas as sutilezas que dão corpo ao filme. Dificuldade parecida separa a leitura de um poema da leitura de um texto discutindo o poema. No meio do caminho algo inevitavelmente se perde – algo não pode ser narrado. O filme de Marcelo Gomes é exatamente uma espécie de poesia – um hai-kai sertanejo.

“Dê um jogo de novas lembranças” Hai-kai é aquele estilo japonês de poema mínimo que usa só três frases e uns poucos elementos para abrir sentidos novos no mundo. O filme faz o mesmo. A aridez do sertão ali não destaca o sol ou o chão seco mas o profundo espaço vazio e silencioso. É uma espécie de sertão interior, visto de dentro do olho de alguém. A fotografia é essencial: o sertão é todo branco, frio, dolorido na vista.

“Não dê príncipes & sapos” Em 1942, plena Segunda Guerra, o alemão Johann divulga pelo sertão a Aspirina, suposta cura de todos os males. Para vender o produto, encanta o povo ao exibir filmetes de propaganda na traseira do caminhão. No caminho encontra um ácido sertanejo, Ranulpho, que vai rumo ao Rio de Janeiro. Em troca da carona e algum dinheiro, ele aceita ser guia do alemão por aquelas terras.

“Dê um céu de uma outra cor” O trabalho de fotografia e a direção de arte são questões à parte. Com um formato mínimo de diálogos e ações (uma distribuidora recusou o filme reclamando que ‘não acontecia nada’) há tempo para marcar bem cada imagem na tela. A granulação e o estouro de luz dão a impressão de que cada fotograma foi queimado na película a fogo de sol e depois raspado na luz do projetor antes de ser exibido dando aspecto de um ‘incômodo bonito’, cheio de ranhuras e vazios.

“Dê aspereza ao amor” A relação de Johann e Ranulpho é uma continuidade desses espaços sem nada dentro. Primeiro arredios um ao outro, uma proximidade que nunca é fácil ou gratuita surge dia após dia de viagem. Muito longe do ‘filme de transformação’ melô que Hollywood produz em lata o ano todo, o que vale aqui são pequenos gestos e olhares. Ninguém é outro no final, e já não é o mesmo do começo. Caso raro, você está de frente com um filme que é possível entender olhando nos olhos.

“Não dê sal demais à vida” Não há defeito em Cinema.... mas desvios. A interpretação de João Miguel (Ranulpho) parece estar todo o tempo na corda bamba, ainda que se saia bem na acrobacia. E, em certos momentos, a lentidão do filme resvala do bom incômodo ou da beleza para um certo desinteresse. É apenas o primeiro filme de Gomes. Sorte que outros presentes virão pela mesma mão. Feliz Natal.

“Então, combinado. Quando a gente derreter, o filme acaba.”

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