Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Dois perdidos numa noite suja

15.11.06

por Daniel Oliveira

Incuráveis

(Brasil, 2005)

Dir.: Gustavo Acioly
Elenco: Dira Paes, Fernando Eiras

Princípio Ativo:
Paes e Eiras

receite essa matéria para um amigo

Podia até ser piada:
“Um suicida pergunta a uma prostituta:
__O que é que a gente faz com isso que a gente é?
__A gente se fode.”


Mas, ainda bem, o trunfo do diretor estreante em longa metragem, Gustavo Acioly, é o de não ridicularizar nem melodramatizar seus personagens. Em “Incuráveis”, ele narra esse encontro improvável e imprevisível de duas pessoas que não sabem o que fazer com suas vidas, presas em um ensaio cíclico de algo que nunca acontece. Adaptado da peça “A dama da Lapa”, o filme tem praticamente um único cenário – o quarto da prostituta vivida por Dira Paes (2 filhos de Francisco) – e se alicerça no diálogo de uma noite entre ela e o suicida, interpretado por Fernando Eiras. Mas está longe de ser teatral.

Envoltos em mistério, já que nunca se sabe o nome dos personagens ou o seu passado, os dois protagonizam um embate, uma disputa de sobrevivência e poder, em que um subjuga o outro para depois ser subjugado. Nisso, eles são acompanhados pela bela fotografia de Lula Carvalho, fortemente contrastada. Ela realça as sombras em que os dois personagens vivem, fornecendo, com a (falta de) luz e os enquadramentos fechados, um ambiente claustrofobicamente escuro. E a cada momento que se revela uma nova faceta ou informação de cada um deles, o personagem se encontra em um fiapo de luz.

Da mesma forma, a disputa de poder é refletida no sexo – em cada situação, é um dos dois que está no controle do ato, chegando ao extremo de, numa imagem espelhada, a prostituta “comer” o suicida. Mas essa relação cíclica é marcada principalmente pelo diálogo, cujas falas se revezam entre os dois, especialmente a pergunta inicial: “o que é que a gente faz com isso que a gente é?”.

“Incuráveis” é um longa mais de perguntas do que de respostas. Seu final aberto, e ambíguo, deixa para o público a possibilidade de redenção para seus dois protagonistas. Assim como os personagens de “Closer”, eles não sabem amar, por estarem demasiadamente presos aos seus demônios internos.

Acioly constrói um longa simples e coerente, que envolve em seus mistérios – e em sua boa trilha sonora (que também conta com a participação do diretor, como músico) – quase como um filme noir. O cineasta acerta em não procurar respostas e tem a sorte de contar com dois atores afiadíssimos em seus papéis. É neles que “Incuráveis” aposta suas fichas. E é com eles que Acioly fez uma bela estréia em longa metragem.

Dira: “Fica comigo, eu largo o Francisco por você”

» leia/escreva comentários (2)