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A Turista Oriental

10.03.06

por Rodrigo Campanella

Mulheres do Brasil

(Brasil/2006)

Dir.: Malu de Martino
Elenco: Camila Pitanga, Dira Paes, Deborah Evelyn, Bete Coelho, Carla Daniel

Princípio Ativo:
telinha a fogo morno

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Numa boa cena de ”O Terminal”, o diretor do aeroporto detecta de longe um grupo de imigrantes ilegais japoneses disfarçados de turistas rumo à Disney. Impressionado, um assistente pergunta como ele descobriu a farsa. A resposta vem de pronto: “você já viu turistas japoneses sem uma máquina fotográfica no pescoço?”.

Apesar de cristalizado na figura do turista oriental, o visitante que consome culturas em fast-food usando as fotografias como canudinho pode portar qualquer nacionalidade no passaporte. “Mulheres do Brasil” parece ser o exemplar nacional em película do turista em fast forward.

A proposta inicial do filme era, unindo ficção e fragmentos de documentário, mostrar a vida de mulheres em diferentes cantos do Brasil. Como base, contos de escritoras daquelas regiões. A parte documental mandou um abraço no meio do caminho e deixou de bom apenas algumas belas imagens dos romeiros na Bahia. Já a ficção – o grosso do caldo do filme – desandou numa mistura de pressa e medo de arriscar.

“Você já percebeu que aqueles turistas afobados só vão curtir a viagem quando chegam em casa e vão mostrar as fotos para os parentes?”, comentava um amigo por esses dias. Ele não viu “Mulheres do Brasil”, mas bem que poderia estar comentando o filme. Dividido em cinco curtas, “Mulheres” exala por cada poro a sensação de que foi feito para ser vendido para televisão e exibido de segunda a sexta depois do último jornal. A carreira nos cinemas é só o primeiro passo.

Não que isso seja pecado, mas é bom deixar claro: cinema é que não é. Não basta estar numa sala escura e separar bem (muito bem, aliás) os canais de som Dolby para ser cinema. Dos cenários aos ângulos, das narrativas às cidades exibidas em luz de cartão-postal, tudo conspira para um programa que cai melhor com o chinelão e o sofá da Tela Quente do que com a pipoca e o refri. O descompromisso da tv casa bem com a afobação e a profundidade rasa das histórias, só salvas pelo gongo por atuações como as de Deborah Evelyn e Bete Coelho.

Mulheres e lugares absolutamente diferentes (Curitba, Bahia, Rio) ganham o mesmo alegre colorido de ‘exótico’ nas mãos da diretora. É o Brasil formatado para olhos estrangeiros apressados, mas agora os estrangeiros somos nós mesmos. O carão de tv certamente vai agradar e levar gente ao cinema, o que nunca é mau. Só pena não haver ali nada capaz de dar conta de ir a fundo nesse labirinto fantástico chamado mulher. Planificar o terreno pode até render pagantes mas tira toda a graça que é se perder lá dentro.

Camila Pitanga brinca de ser colegial, o filme brinca de ser profundo e a gente não entra na brincadeira.

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