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Prateleiras diversas

21.03.06

por Rodrigo Campanella

Bens Confiscados

(Brasil/2005)

Dir: Carlos Reichenbach
Elenco: Betty Faria, Werner Schünemann, Antônio Grassi, Renan Augusto

Princípio Ativo:
média em alta

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Dos diretores da chamada ‘retomada’ do cinema nacional, Carlos Reichenbach é o que parece ter o projeto mais consistente de aproximar grande público e as grandes telas sem abrir mão de um grama em qualidade. O termo ‘retomada’ dá a falsa impressão de movimento unido a um muito interessante balaio de propostas e gêneros que, na última década, chegou nos cinemas falando português. “Bens Confiscados” é a segunda entrega de Reichenbach nesssa leva (já houve ‘Garotas do ABC’) e leva à conclusão inicial.

Dentro da produção brasileira recente, o racha claro parece ser entre o filme de baixo escalão que a Globofilmes entrega quase bimestralmente e os filmes (preconceituosamente) rotulados de ‘cabeça’, talvez por quase sempre possuírem a parte do corpo que falta do outro lado. “Bens Confiscados” escapa de qualquer classificação simples e coloca outras em xeque. É cinema da melhor qualidade sobre gente e feito também para gente, despretensioso e certeiro ao filmar Brasil. É um filmão.

Longe de cair na crítica social porrada-na-cara ou na reflexão poética, Reichenbach une essas pontas e constrói uma narrativa belamente linear em imagens e personagens. Se bom cinema consegue içar da realidade sem tirar os pés do chão, esse é um exemplar a ser estudado naqueles laboratórios chamados faculdades, de cinema ou comunicação. Caso raro de filme que atrairia para o cinema a média-baixa e a média-média sem ser execrado pelo ‘classão’ que se diz esclarecido.

É a história da enfermeira Serena, convencida por um ex-caso, o senador Américo Baldani, a esconder seu filho bastardo depois que a mãe do garoto se mata. Baldani, em crise política, não dá as caras e comanda o destino de todos dos bastidores, usando quem está abaixo na hierarquia.

Bom lembrar que, no país, a classe baixa e boa parte da média praticamente não vão ao cinema, quase todo mocado em shoppings com ingressos salgados. É a vida comum de quem economiza para almoçar fora no fim de semana que Reichenbach vem mostrando, desde as operárias de ‘Garotas...’. Vida simples, que pode gerar um bom desconforto num país de classes tão estereotipadas.

Nada difícil de entender no país onde o que vende é Veja e Jornal Nacional. Aliás, à primeira vista, “Bens Confiscados” cairia bem na telinha, mas acabaria perdendo aquela potência que se divide entre Betty Faria (desperdiçada pelo resto do cinema nacional) e o restante da fotografia, além da habilidade de suspender o tempo que parece vir direto de “Menina de Ouro”. É a prova de que um modelo popular pode ser de luxo.

Afinal, o filme é dela.

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