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Você tem fome de quê, você tem sede de quê, etc.

17.04.06

por Rodrigo Campanella

Tapete Vermelho

(Brasil/2006)

Dir.: Luiz Alberto Pereira
Elenco: Matheus Nachtergaele, Vinícius Miranda, Gorete Milagres

Princípio Ativo:
BR, país do passado

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Se ainda é possível fazer uma homenagem a Mazzaropi, o antológico comediante brasileiro, é impossível fazer hoje em dia um filme ‘de Mazaropi’. Essa parece ser a mensagem principal por trás de “Tapete Vermelho” e sua grande qualidade também. Vendido por parte da imprensa e por publicidade como uma retomada das comédias do jeca que já fizeram tanto sucesso no cinema brazuca, o filme frustra esse caminho para abrir outros, nem todos bem.

Quem se interessa por cinema nacional vai querer acompanhar o desempenho de “Tapete Vermelho” em bilheterias e locadoras, nem que for para responder a pergunta: quem quer ver Mazzaropi hoje em dia? A resposta vale bastante para entender que país é esse hoje em dia e o que ele gosta (ou suporta) ver na tela, especialmente em uma bem grande.

Mazzaropi está presente por todos os cantos do filme: na boa versão que Matheus Nachtergaele faz do personagem original, no ritmo desacelerado da comédia (às vezes quase paraaaando...) e na trama em si. Nela, o humilde Quinzinho sai de sua fazendola no interior com bagagem de filho, mulher e burrico, rumo a cumprir promessa feita ao menino, de levá-lo para assistir a um filme do comediante em sala de cinema. Parte da crítica certamente vai ver maravilhas ao olhar o jeca como bom selvagem exótico, essa coisa que turista adora.

O percurso rende algumas boas paisagens, risadas gostosas espalhadas e uma grande falta de fôlego para tocar a comédia em frente. Se Nachtergaele parece desacelerado de propósito para colar no tempo de Mazzaropi, a direção parece fora de lugar sem achar o tempo certo da leveza. No mais, corre pela tela um portifólio global de atores, fazendo pensar quando é que o cinema nacional vai deixar de ter cara de televisão.

Mas apenas quando o filme dá sua guinada da comédia a meio-pau para um resquício de drama é que algo de muito interessante entra nos eixos. Mesmo com a frouxidão da narrativa, o assentamento dos sem-terra e os meninos de rua da capital paulista dão a força que faltava para um filme que, essencialmente, mostra todo o tempo o Brasil como um país em pleno rumo ao subdesenvolvimento. A ausência de cinemas no interior e o descaso com as velhas latas de película não são apenas o sintoma de um país retrocedendo, mas duas rodas da marcha à ré.

Se a ousadia do filme é claramente pouca, servir como resgate de um momento e gancho para crítica da situação do cinema no Brasil já é muito positivo. Afundar unhas (ainda que curtas) nas perebas sociais abertas, também.

Cinema hoje em dia é pra olhar, filho: a gente passa na porta, olha e vai embora.

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