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A vontade de usar Caps Lock

24.02.05

por Rodrigo Campanella

Quase Dois Irmãos

(Brasil, 2005)

Direção: Lúcia Murat
Elenco: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner Shunemann, Antônio Pompeo, Maria Flor

Princípio Ativo:
É bom ver um lado b

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Neste Quase Dois Irmãos, o passado da diretora se confunde com a matéria do filme. Lúcia Murat sofreu com a perseguição política, a prisão e a tortura nos tempos da ditadura. Volta ao assunto tomando o caminho da ficção, e muda o foco da repressão militar para os obstáculos de uma outra violência, simultaneamente menos e mais divulgada: o difícil diálogo entre a classe média e o morro, às vezes presumido como impossível.

Escolhe como história um verdadeiro carrossel temporal (muito bem editado, que não se esqueça) desenrolado em volta de um encontro inusitado na Penitenciária da Ilha Grande. Nos tempos da ditadura, presos políticos e comuns dividem a mesma galeria da prisão. Ali se reencontram Miguel, preso político e Jorginho, bandido comum. Graças à amizade dos pais, foram amigos na infância. Muito tempo depois desse encontro na Ilha, o primeiro será senador e o segundo, líder do tráfico no morro. Na vida real, desse encontro de presos nasceu o Comando Vermelho.

Mas trata-se de um filme de ficção e não um documentário. Por isso mesmo incomoda um pouco um certo tom de “declaração em papel passado” que recende do filme. Se o tema é exatamente o vazio desse diálogo margeando o impossível, as frases parecem justas demais na boca das personagens. Essa vontade de “Afirmar” algo sobre aquelas vidas cruzadas acaba transformando em caricatura personagens que, postos em discussão, poderiam render algo incômodo a se pensar.

O que acaba sendo revigorante aqui,é a sensação de estarmos vendo um certo “lado b” de Cidade de Deus, exatamente o que teria ficado encoberto sob a luz e a edição extremamente gráficas do filme de Meirelles. A violência muito mais crua em Quase Dois Irmãos, física e social, contra ambos os lados, acaba servindo como um tipo de complemento para o outro filme. Dentro da mesma questão é excelente saber que o filme está apenas começando quando um roteiro comum já sorriria para o final. Só assim é possível assistir a seqüência de voltas que o fato ‘poder’, tomado pelas diferentes mãos, impõe à história.

Infelizmente a opção por uma direção de atores exageradamente teatral restringe bastante as possibilidades do elenco, ainda mais quando o texto não é tão interessante assim. Do mesmo modo, há um ‘machismo’ por trás do pensamento da obra que deixa o filme mais pobre. Tudo parece reduzido, em certo nível, a uma brincadeira de ‘quem é mais forte’ entre meninos. Nessa brincadeira, não cabe diálogo. Pena que as mulheres do filme assistam passivas a tudo que acontece. Talvez estivesse com elas, quem sabe, a chave do diálogo desconhecido.

Vamo lá pessoal, pose caprichada pra capa da Vogue

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