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O dito pelo não dito

21.06.06

por Rodrigo Ortega

Marcelo D2 - Meu Samba é Assim

(Sonybmg, 2006)

Top 3: “Dor de verdade” e “Nega”, “É preciso lutar”.

Princípio Ativo:
S.A.M.B.A.

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Meu Samba é Assim é o disco mais maconheiro de Marcelo D2. As letras falam cada vez menos sobre maconha, mudança notável desde a estréia de sua ex-banda Planet Hemp até este quarto álbum solo, sucessor do Acústico MTV (2004). O que justifica a afirmação inicial é a diferença no som: em várias músicas, D2 está mais tranqüilo e devagar, características indisfarçáveis em quem fuma aquele cigarro que o Selton Mello ensina a fazer em Árido Movie.

A primeira frase dita por D2 no disco é a pergunta retórica "Quem é que mistura rap com samba?”. A música é “Meu Samba é Assim”, provável sucessora de “Gueto”, primeira música de trabalho do álbum. “Sinistro” fecha a trinca de músicas para a moçada virar o boné para o lado e balançar a mãozinha nos shows. Mas para quem ouve tudo até a última faixa, elas funcionam como uma boa seda: são firmes e queimam bem, mas não têm cor e cheiro como o conteúdo.

Pianos, contrabaixos e batidas arrastadas são a melhor parte do recheio de Meu Samba é Assim. Os pianos bossa-nova de “É preciso lutar” e “Um filme malandragem” seguem a recente e bem sucedida parceria do brasileiro Sérgio Mendes com will.i.am, do Black Eyed Peas. O baixo da vinheta “Malandragem” e a letra de “Pra que amor” (“Mesmo com nota de cem / ter amor supremo como John Coltrane”) denunciam a vontade de incluir jazz na “mistura de rap com samba”. Pode parecer pretensioso, mas acaba soando simpático.

É nos refrões de samba que o disco chega ao clímax. “Falador”, “Dor de verdade” (que tem um dueto dos cantores Zeca Pagodinho e Arlindo) e “Nega” fecham outra trinca, desta vez mais interessante. Elas quase passam como sambas antigos, se não fosse pelo peso das batidas. Mas em "Nunca Esquecer", Marcelo escorrega na busca de memórias da malandragem carioca: "Lembro do tempo da Vila de Noel", canta em referência ao compositor Noel Rosa, falecido em 1937.

O romantismo de “É assim que se faz” é tão destoante da imagem casca-grossa do cantor que chega a ter gosto duvidoso, apesar de bem produzido. “Pra que amor”, com participação de Alcione, também aposta no velho mote do “às vezes a gente esquece que malandro também ama”.

Apesar de variar os assuntos, D2 ainda repete seus bordões e auto-referências, que agora incluem sua marca de roupas, Manifesto 33 1/3. Por isso o alívio quando, por exemplo, em “Pra que amor”, ele troca o batido verso “M.A.R.C.E.L.O” por “A.M.O.R”. O som de D2 é melhor quando o "eu canto assim porque eu fumo maconha" e o "eu misturo rap com samba" passam da boca para os pés. Ficam menos explícitos, porém mais firmes.

Maconha não é ruim para a memória: D2 se lembra até de Noel Rosa

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