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O abre alas

06.07.06

por Rodrigo Campanella

Carros

(Cars, Estados Unidos, 2006)

Dir.: John Lasseter
Elenco: Owen Wilson/Márcio Garcia, Paul Newman/Daniel Filho, Bonnie Hunt/Priscila Fantin

Princípio Ativo:
para o alto e algum outro lugar

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Por um longo tempo, o outro nome de “Carros” na imprensa era “o último filme da parceria Disney-Pixar”. Todo mundo imaginava o destino da Disney sem as produções afiadas do estúdio d’Os Incríveis e pouca gente lembrava que a Pixar estava prestes a perder a bazuca de distribuição/divulgação que a Disney oferecia, de bom grado e bolso feliz.

Isso ajuda a entender porque “Carros” tem chance de ficar para a posteridade como o primeiro clássico infantil da empresa de Steve Jobs. Com moral no fim, romance de protagonista e personagens simplificados, a história passada no mundo habitado por carros ressoa em todos os cantos a ‘animação clássica’ - o padrão Disney de narrativa.

Seja escolha ou uma coincidência pra lá de feliz, se a Disney não tivesse aberto mão de um pedaço de si mesma para ganhar a Pixar, a companhia de animação computadorizada teria saído para o mercado com um belo portifólio final debaixo do braço.

“Carros” mostra que a Pixar pode muito bem entregar filmes ‘infantis’ quando quer, e se ela já foi considerada ‘a nova Disney’, esse lugar nunca foi tão próximo quanto agora. O assombroso trabalho nos cenários e o avanço na animação apontam também para um estúdio em expansão. A Pixar procura seus limites - e não quer ser só a Disney 2.0.

“Carros” é um pacote de qualidades e apostas, dando em boas e más escolhas. Temos um herói arrogante e algo antipático, o carrinho de corrida Relâmpago McQueen, que no percurso para uma corrida na Califórnia mete-se numa perseguição policial desastrada, arrebentando a rua principal de uma cidade esquecida no meio da Rota 66, a mítica e hoje abandonada estrada que corta o interior americano.

Positivo, o interior aqui é muito mais que um bando de gente mentalmente lesada , sendo um dos melhores personagens o caipirão Mate. Apostar em um conto infantil sobre o mundo das corridas automobilísticas e o abandono de todo um povo interiorano também é algo arriscado (para o bem), que no fim soa americanizado em excesso, mesmo tendo-se boa vontade.

De outro lado, a Pixar toca em frente seu projeto (consciente?) de revisar na animação gêneros (a)batidos do cinema americano. “Carros” retoma clichês típicos de ‘filmes de esporte’, re-processa e devolve imagens com gosto totalmente novo. Além disso, consegue fazer a típica historieta Disney soar algo nova, risonha e interessante. Mesmo muito melado e sem aquele grande tom de criança fazendo arte (Monstros, Nemo), “Carros” conquista. Às vezes, é preciso a ilusão de que o mundo é simples assim.

Sabe o horizonte lá no fundo? É pra além de lá que a Pixar vai indo...

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