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CSI do mau

17.07.06

por Daniel Oliveira

Bubble

(EUA, 2005)

Dir.: Steven Soderbergh
Elenco: Debbie Doebereiner, Dustin Ashley, Misty Wilkins, Laurie Lee, Decker Moody

Princípio Ativo:
uma outra história

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Existem duas histórias em “Bubble”. Uma é a que se desenrola na tela e que pode surpreender, entediar ou até deprimir. Outra, bem mais interessante, passa-se dentro da cabeça dos personagens – e você tenta decifrá-la durante os longos closes filmados por Steven Soderbergh.

O que incomoda no longa não é a falta de perspectiva de Martha e Kyle, dois funcionários de uma fábrica de bonecas no interior dos EUA. Nem é a lentidão monótona como esse cotidiano é filmado. Incomoda olhar para os personagens e pensar que a vida deles parece tão vazia quanto o interior daquelas bonecas. Ou pior: incomoda o aprisionamento vivido pelos dois em uma cidade pequena – ela, condicionada aos cuidados com o pai doente; ele, preso a uma vida social nula, vítima da síndrome do pânico.

O que Soderbergh e o roteirista Coleman Hough fazem é mostrar que, se a realidade confina o corpo em uma vida sem perspectivas, a mente não se sujeita. Ela cria mundos e ilusões que podem não existir, alimenta-se deles – e usa mão dos mecanismos mais radicais para os proteger. Quando a realidade é cruel e tudo que se tem é o sonho, você não deixa que te tirem esse sonho facilmente.

O cotidiano de Martha e Kyle é balançado pela chegada de Rose, funcionária nova – tão sem perspectivas e entediada quanto os dois. Mas o inconformismo cínico e a vontade dela de sair daquela cidade mexem com os sentimentos dos dois que, até então, pareciam acostumados com a situação.

O trunfo do roteiro de Hough está na ótima caracterização e no olhar cruelmente realista que lança sobre os personagens. Nenhum dos três é particularmente simpático. Martha mal disfarça sua carência; Kyle é um paspalho que não consegue beijar uma garota que praticamente pede por isso – e usa a timidez como muleta; Rose é dissimulada e capaz de fingir seus sentimentos por um roubo medíocre.

O roteiro mostra os protagonistas tão sem luz e sem vida quanto a cidade, no que é ajudado pela fotografia. E Hough vira do avesso o que seria mais um crime dos “CSI” ou “The closer” da vida. Ao contar a história do outro lado, ele mostra porque crimes tão estranhos acontecem na terra do Tio Sam.

A direção de Soderbergh é precisa porque quase não aparece. É incrível o que ele faz com Debbie Doebereiner, Dustin Ashley e Misty Wilkins, um elenco não-profissional. Nas mãos dele, os três convencem em cada cena e cada fala que, por sinal, são improvisadas. E a casa dos personagens também é a mesma dos atores. Um diretor que sai da bolha dos blockbusters para retratar a bolha de personagens invisíveis, mas extremamente interessantes.

Esse é o mais próximo de um sorriso espontâneo que você vai ver nesse filme.

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