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Em nome de Z

03.08.06

por Daniel Oliveira

Zuzu Angel

(Brasil, 2006)

Dir.: Sergio Rezende
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Luana Piovani, Ângela Leal, Elke Maravilha

Princípio Ativo:
Uma dívida histórica

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Minha família conta com vários tios militares (e orgulhosos). Eu sou o chato que sempre pergunta a eles como podem trabalhar para uma organização com um histórico tão manchado. A resposta é sempre: “O Exército é uma instituição brasileira histórica!”. Historicamente em dívida.

É um milésimo dessa dívida que “Zuzu Angel” vem ressarcir àqueles que perderam entes queridos durante a ditadura. Não que o longa seja sensacional. É que a história da estilista (Patrícia Pillar) que perdeu o filho Stuart (Daniel de Oliveira) – torturado e morto pelos militares – é muito boa (no sentido mais terrível da palavra), além de extremamente cinematográfica. A “encenação” de um julgamento para Stuart, depois que Zuzu já sabe que ele está morto – e mesmo a cena em que ela descobre isso – pediam para serem filmadas.

O diretor Sergio Rezende pega isso e faz um filme correto. A realidade (ou Zuzu) já deu de graça a concepção visual do filme. A moda colorida e estampada da estilista – que a direção de arte recria impecavelmente - era um grito esfuziante e colorido em meio às sombras e à escuridão da ditadura – captada com competência pela fotografia de Pedro Farkas.

Com esse trunfo, Rezende se refugia na história e não arrisca nem um enquadramento mais ousado. Sua direção é melhor (e mesmo assim, pouco) percebida na condução dos personagens, assegurando que não soem heróicos demais e pouco reais. A seqüência em que Zuzu vai impulsivamente lamentar a morte do filho ao pai de Lamarca é um bom exemplo disso; a deslocada cena de sexo entre Stuart e a mulher, Sônia (Leandra Leal), é um ruim.

Resultado disso, “Zuzu Angel” caminha na corda bamba, mas escorrega poucas vezes para o maior defeito do cinema nacional – a cara de novela. O sonho de Zuzu quase no final do longa, a narração em off e os letreiros muito didáticos são excessos desnecessários.

O filme vence pela força e pela representatividade da história de Zuzu, tornando quase uma obrigação cívica assistí-lo. Se Rezende errasse com esse material, podia mudar seu nome para Jayme Monjardim e ir dirigir novelas. Prova de que o longa funciona é que, ao final, eu tinha raiva dos militares - e não dos produtores que me roubaram dez reais, como aconteceu em “Olga”.

Mas o que queimava meus neurônios depois da sessão era algo específico. Depois de ver o nome de José Dirceu nos agradecimentos finais, eu me perguntava se algum dia esse país vai fazer sentido. Dificilmente. Mas filmes como “Zuzu Angel” são um começo bem pequeno da necessária mea culpa para nossas maiores incoerências.

Zuzu nunca foi à Plaza de Mayo, mas não perde em nada para as mães de lá.

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