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Com fronteiras, sem destino

02.09.05

por Rodrigo Campanella

Exílios

(Exils, França/Japão 2004)

Dir.: Tony Gatlif
Elenco: Romain Duris, Lubna Azabal, Leila Makhlouf

Princípio Ativo:
Bússola quebradiça

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A grande impressão de um “National Geographic para intelectuais”, que a Globo nunca exibiria, é o gosto que fica na boca quando a luz se acende no final. Vimos ali um personagem principal literalmente representando uma história que não é a sua e uma busca que parece nunca ser o que busca. Ao seu lado, uma companheira parece bem mais interessante e complexa do que o próprio – e que, apesar de presente na maior parte dos planos do filme, pulando e gesticulando, não ganha o destaque que merece. Nenhum mapa poderia ser melhor para definir o sucesso das intenções de um filme chamado Exílios do que esses pontos todos fora do lugar. Mas intenções não fazem filme nenhum.

A própria estrutura do filme claramente remete a um estado de permanete exílio: estado de sem-lugar. Aí, talvez, a grande qualidade. A sensação de não saber exatamente onde se está, em que dia e em que ponto da viagem é palpável e desconforta qualquer espectador. Como road movie, mais do filme de viagem (não há destino muito certo), parece estar aí o grande valor do filme. Ao mesmo tempo, falta coerência na construção do filme que una tudo e dê algum fio interno (ainda que não seja no sentido narrativo comum).

O filme começa com plano belíssimo do homem (Zano) parado em frente à janela de um apartamento de metrópole. Nu ele na janela, nua a amante na cama. Ambos com sérios problemas relativos a passado e identidade (a impossibilidade de ter uma), resolvem fazer uma viagem até a Argélia, terra dos antepassados de Zano, de pé no chão e sem planejamento algum. O foco inicial em Zano acaba se tornando um retrato do excesso de holofote que o filme joga sobre o homem, deixando sua amante (Naima) num desmerecido segundo plano.

Assistindo ao filme já sabendo do prêmio de melhor direção ganho em Cannes, é fácil encontrar boas razões para a vitória. O diretor Gatlif filme apaixonadamente aqueles dois e a viagem em si, com uma sucessão de planos belamente simples, especialmente aquela poça d’água em meio ao escuro, que diz tanto. Sem contar a prova de peito que é fechar com aqueless impossíveis quinze minutos finais, especialmente uma sessão de transe, que funciona como uma aula magna de deslocamento sensorial.

No todo, fica impressão no ar de coisa que foi mal impressa na forma-filme ou impressa com pretensão demais, apesar de sincera. Na dúvida entre deslocar e contar, ficamos distantes das personagens e de sua pretensa busca (que no final nem é aquela tão falada, mas outra mais interessante), mas próximos demais de nós ao mesmo tempo.

Eu faço que não vou e vou /
ela só diz que vem, não vem...

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