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A História, ao vivo

12.03.05

por Rodrigo Campanella

Entreatos

(Brasil, 2004)

Direção: João Moreira Salles
Elenco: Luis Inácio Lula da Silva, Duda Mendonça, José Alencar

Princípio Ativo:
Fio de navalha

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“Eu sabia que era uma campanha histórica. Se ele ganha, era a primeira vez que alguém da classe pobre, operária, chegaria ao poder. Se ele perde, seria a quarta vez, dificilmente ele iria tentar de novo, e era a certeza de que alguém como ele nunca chegaria lá”. A campanha é a disputa pela presidência da República em 2002. O “ele” em questão é Lula. Com essas palavras João Moreira Salles costuma explicar a importância de se produzir seu Entreatos.

A equipe do diretor acompanhou o então candidato durante o período das eleições de 1º e 2º turnos. Entrou em reuniões de cúpula, foi com Lula no barbeiro, na gravação das propagandas políticas. Acabou tecendo um filme em que, pelo contraditório das situações, os espectadores e a história política saem com vitória. Assim, há o Lula ensinado por Duda Mendonça a se mover diante das câmeras, mas também o político, que domina a cena no convívio diário com os colaboradores de campanha. Entre um e outro a corda (sempre bamba) do documentário balança.

De certo modo, a câmera de Moreira Salles parece apaixonada pela figura de Lula e isso, aqui, é algo muito bom. Essa paixão não rima com reverência, o que permite que a imagem seja tomada longamente tanto pela presença de Lula contando suas histórias, quanto pela exibição das concessões do candidato para formatar sua imagem para a telinha da tv. Ademais, Lula parece perfomar todo o tempo para uma câmera, e fica a impressão de que isso não se deve necessariamente ao fato de haver realmente uma câmera ali. Sobra espaço para observar sua capacidade incomum de presença, capaz de preencher tanto a tela grande quanto a atenção do espectador.

Logo no início, Salles parece consciente da questão que (com razão) percorre o documentário inteiro (a mesma dessa crítica): não é possível dizer nada sobre Lula. O que se pode é falar sobre a superfície, fazer um filme sobre o filme que é possível fazer de uma campanha histórica à presidência. E um pouco mais além, um filme sobre uma possibilidade política/histórica, creia-se nela ou não. Acaba saindo dessa sinuca com um argumento potente: a fineza.

Dos créditos de abertura e entretítulos, da escolha das cenas (talvez a mais bonita coleção de enquadramentos em condições insalubres já vista) à opção por focar os “momentos mortos” da campanha (e não as aparições públicas), Salles mostra que não é apenas educado. Tem bom gosto na estética que adota e na pretensão limitada que assume frente ao material que possui. Escolhe acreditar que um documentário não explica o mundo, no máximo fala de possibilidades. E prova que, às vezes, para fazer história, basta isso.

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