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O mundo de lá

01.11.06

por Rodrigo Campanella

Fica Comigo Esta Noite

(Brasil, 2006)

Dir.: João Falcão
Elenco: Vladimir Brichta, Alinne Moraes, Laura Cardoso, Gustavo Falcão, Clarice Falcão

Princípio Ativo:
engano

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Logo depois que o diretor João Falcão faz aquela que é provavelmente sua melhor cena de cinema, um tão simpático chaveco adolescente enquadrado numa prateleira de encadernados de quadrinhos, começa a pipocar a versão do filme para a música-título, na voz do protagonista Vladimir Brichta (Edu). Ouvindo esse plástico açucarado, você instintivamente imagina o tamanho do pastel de vento que vem pela frente.

O maior mérito de Falcão é construir um filme com potencial para alguns vôos, que fisga uma ou outra risada e cativa de quando em quando, talvez de vinte em vinte minutos (o morre-não-morre do começo é excelente). Entre esse e o anterior do mesmo diretor/roteirista (“A Máquina”), há uma compreensão maior do que é fazer cinema. A câmera agora existe, quem assiste é enganado e cúmplice no engano. Brichta também tem carisma para segurar a cena mesmo num papel com só dois tons – morto! e apaixonado...

E Alinne Moraes está ali só para lembrar todo o tempo como algum dia você acaba encontrando (querendo encontrar) a certeza de que alguma é a mulher mais linda do mundo, e nesse momento chão vira um pouco corda-bamba.

A grande pisada na bola do filme vem envelopada na própria trama, divertida e bem frouxa. Edu, já morto, desdobra o ectoplasma para passar uma última noite com sua Laura. Um fantasma real, mas remodelado de sua imaginação(!), lhe dá a senha. Há 3 mundos: os vivos, os mortos e um tal terceiro mundo, “para os otimistas, paraíso”. Enquanto Edu estiver no segundo – das almas penadas – pode tentar aquele encontro que faltou.

Se o cinema possui um primeiro mundo estampado na tela e um terceiro onipresente, dos que narram a história dentro de uma linguagem (cinematográfica), há também um segundo e invisível mundo, talvez mais escondido por ser ignorado: o dos produtores. Resumo rápido, vai ser duro engolir o produtor Diller Trindade agradecendo no dvd de “Fica Comigo” pela bondade de João Falcão em diminuir, rasgar e piorar seu filme para ficar algo mais “comercial” ou “viável”. A cena já está lá, cifrada no making of de “A Máquina”.

A trilha sonora contribui nisso e faz um sincero convite ao uso criativo do Ipod, criando a tentação de assistir uma cópia legendada enquanto se escolhe na chapinha branca algum som melhor. Teria sido uma sessão mais feliz, tanto quanto se o filme não fizesse pouco caso de sua própria história para contar tudo rápido e sem coração lá pelas tantas, buscando um formato-fórmula que é “comercial” ou “viável”, esses eufemismos que desculpam um filme que desandou...

Não é nada pessoal sabe, mas vou embora enquanto dá tempo...

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