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Sangue congelado

04.11.06

por Rodrigo Campanella

Jogos Mortais III

(Saw III, Estados Unidos, 2006)

Dir.: Darren Lynn Bousman
Elenco: Tobin Bell, Shawnee Smith, Angus Macfadyen, Bahar Soomekh, Dina Meyer

Princípio Ativo:
autofagia

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Com o cofre gordo depois do segundo capítulo, o franchising Jogos Mortais conseguiu, aparentemente, verba para alugar um equipamento completo de iluminação, contratar um diretor de fotografia e comprar um ferro-velho inteiro pra fazer cenários. Tudo isso sem prejudicar aquelas duas idas semanais ao açougue, que servem de inspiração para converter material cenográfico em uma espécie de “estado da arte” atual na imaginação da tortura. “O Albergue” é vizinho de porta.

Só que agora o frigorífico mudou para o shopping e virou uma butique de carnes, daquelas onde o fígado embalado a vácuo parece conter apenas o segundo elemento. Um crânio estourado em “JM3” consegue aparecer na tela com a mesma expressividade e impacto de um saco de carne moída filmado.

Dá para desconfiar que as idéias (já escassas) deram adeus e a mediocridade começou a tocar a campainha quando uma série que avançou tão pouco já sente a necessidade de, quase literalmente, se alimentar do próprio intestino. Na edição 2006 dos Extreme Games do maníaco Jigsaw (Bell), agora acompanhado da pupila Amanda (Smith), estão em competição a médica Lynn e o atormentado Jeff. A primeira deve manter Saw, com câncer terminal, vivo até que o jogo de perdão (?!) armado para Jeff termine. Pode parecer interessante, mas a condução do filme é tacanha. O diretor-pedreiro contratado Darren Lynn Bousman parece ter dado todo o sangue no filme anterior da série.

O que o segundo volume tinha de bizarramente divertido – se você gosta de jogos de gato e rato nadando em vísceras – e o primeiro de tosquice funcional, volta aqui em versão ‘estéril luxo’. É o caso daquela embalagem a vácuo que parece carne, é vendida como carne mas, possivelmente, é só impressão mesmo. As engenhocas de morte são bem-pensadas, mas caem fácil de interesse diante do auto-fascínio movido a engrenagens (quanto dinheiro a gente tem!) ou da direção conduzida a marteladas.

Agora, se alguém procura apenas uma boa oportunidade de se afundar de agonia na cadeira e ficar com vontade de roer os próprios dedos, vai achar bons momentos por aqui – o que, de certo modo, reflete a incompetência do terror atual para gerar calafrio, tensão muscular e risadas histéricas em alguém. Pior, enquanto você exercita um pouco de desespero, o filme explica, didaticamente, todas as pontas soltas dos capítulos anteriores. A tortura-chave é essa: tratar o espectador como uma criança de sete anos e convencê-lo de que isso é normal.

Momento de aprendizado, versão "Jogos Mortais"

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