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Otimismo até demais

24.11.06

por Mariana Souto

Do Luto à Luta

(Brasil, 2005)

Dir.: Evaldo Mocarzel

Princípio Ativo:
estereótipos ao contrário

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É delicado avaliar um documentário que tem uma postura positiva diante da Síndrome de Down. Se você critica, é um insensível preconceituoso. Se elogia, parece que está premiando a própria boa visão da síndrome. Vamos então procurar abstrair o tema, a boa iniciativa de se realizar esse tipo de filme e avaliá-lo como peça cinematográfica: sua eficiência como um documentário.

“Do luto à luta” é uma peça falha e não é documentário eficiente. Parece que falta objetivo e um bom recorte do tema. A síndrome é um assunto tão vasto que precisaria de certo foco para ser apresentado em 75 minutos. O diretor faz uma divisão mal equilibrada, deixando muito tempo para o momento de recebimento da notícia -“parabéns, sua filha tem um problema” -, um pouco para as atividades que eles podem fazer, um tico das limitações biológicas, um neca de política. Saí do cinema com dúvidas básicas como “o que caracteriza mesmo o Down?”.

Podiam nem ter abordado esse aspecto, mas já que colocaram um especialista para falar, que fosse mais completo do que “trata-se de uma doença genética que afeta principalmente o rosto”. Não é bem assim. Evaldo Mocarzel parece querer incutir no espectador uma visão superotimista da questão.

A maioria dos pais teve problemas de aceitação quando soube que o filho era Down. Entretanto, problemas de rejeição estão todos no passado, ninguém fala de dificuldades atuais. Por outro lado, durante os depoimentos, os pais falam na frente dos filhos - um bonito indício de que sabem lidar com o tema e que conversam com a criança sobre a deficiência.

A falta de técnica de Mocarzel para fazer entrevistas é nítida. Fica a sensação de que podia sair material mais interessante de cada discurso além da impactante - mas batida - pergunta: “como foi receber a notícia?”. Em dado momento, percebemos suas motivações pessoais para fazer o documentário – sua filha é Down, aquela da novela. Aliás, todos os entrevistados parecem ser de classe média e alta. O universo é florido quando se tem recursos para assistência e educação. Um deles até comenta que gosta de esquiar na neve...

Um olhar mais rigoroso revela como o documentário soa forçado. Mocarzel é artificial ao inserir cenas como que para falar “olha como eles surfam, trabalham, namoram, como podem ser intelectuais” (e nessa hora, entope o enquadramento de livros). Contudo, “Do luto à luta” restará como útil para esclarecer e melhorar a visão de muitos sobre a síndrome de Down. Seu impacto positivo reside aí.

A vida é mais dura para quem não está na novela das oito.

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