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O nada em preto e branco

02.02.05

por Daniel Oliveira

Sobre Café e Cigarros

("Coffee and Cigarettes", EUA, 2003)

Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Iggy Pop, Tom Waits, Cate Blanchett, Bill Murray, Meg White, Jack White, Alfred Molina, Steve Coogan, Steve Buscemi, Roberto Benigni

Princípio Ativo:
Pausa para o café

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Sabe aquele domingo de tardinha sem nada pra fazer? Clima frio, nenhum filme bom em cartaz, nenhum churrasco, festa, nada na TV. Aí você liga para um amigo e o convida para tomar um café, fumar um cigarro e passar o tempo? Não tem nada de interessante para dizer, nenhuma história para contar ou motivo especial para estar ali: só tomar um café e fumar um cigarro. Isso não renderia um filme, não é?

No caso do diretor Jim Jarmusch, rende 11. Pegue a situação do parágrafo acima, coloque artistas famosos, personagens inusitadas e pronto! “Sobre café e cigarros” é uma coletânea de 11 curtas em preto e branco, compostos basicamente de diálogos, em que a conversa não tem nenhuma importância.

Com o perdão da redundância, as onze histórias são simplesmente sobre café e cigarros – nada mais. É tão engraçado quanto inútil – e provavelmente muita gente vai fazer isso depois da sessão – tentar descobrir alguma “moral” das curtas ou “ligação” entre eles. “Sobre café e cigarros” resume-se ao talento de Jarmusch em captar o humor daquelas situações em que as frases não dizem o que você quer falar. O desconforto de quando não se tem nada de interessante para contar. A capacidade de um café e um cigarro de juntar duas pessoas diferentes ou, pelo menos, com estados de espírito bem diversos.

Impossível não destacar também o elenco estelar improvável arrebanhado pelo cineasta. Jarmusch é diretor de pérolas cult como “Estranhos no Paraíso“. Só ele para reunir Iggy Pop e Tom Waits na telona; fazer Cate Blanchett interpretar ela mesma e uma prima junkie; explorar a estranheza de Jack e Meg White, do White Stripes; e botar Alfred Molina e Steve Coogan interpretando (ou improvisando) a cena mais surreal e engraçada dos últimos tempos.

Jarmusch começou a realizar “Sobre café e cigarros” há 17 anos, mas o filme só foi lançado em 2003. O longa tem seus altos e baixos - conseqüência do nada constante (uma amiga me lembraria de um parentesco com Seinfeld). A fotografia em preto e branco, permeada pela fumaça, cria um ambiente comum aos curtas, assim como a trilha sonora primorosa e as referências pop. Isso carrega boa parte dos espectadores durante uma hora e meia de filme - boa parte essa restrita ao público com mínimo de informação cinematográfica e que conhece o estilo e o ritmo do diretor.

Para a outra parte, o filme pode causar um certo sono. Mas, como “Sobre café e cigarros” só deve passar no circuito cult mesmo, é só sair do cinema ao final da sessão, tomar um café e fumar um cigarro. Já vale o programa.

Meg & Jack fazendo cara de paisagem cult

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