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Espectador acuado na cadeira

18.01.07

por Igor Costoli

Querô

(Brasil, 2006)

Dir.: Carlos Cortez
Elenco: Maxwell Nascimento, Maria Luisa Mendonça, Eduardo Chagas, Milhem Cortaz, Aílton Graça

Princípio Ativo:
dor

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Soco na boca do estômago

É possível que você encontre esta expressão todas as vezes que ler ou conversar a respeito do filme. De cara (ou, na cara) somos apresentados a Piedade (a ótima Maria Luísa Mendonça), mãe do recém-nascido Jerônimo. Prostituta, desesperada e frágil, na seqüência mais cheia de “puta” (palavra sempre dita com ódio) da história recente, e politicamente correta, do cinema nacional. Que abandona o bebê e sai para morrer só, na sarjeta, durante uma ressaca de querosene.

Esquiva

O cenário é o porto de Santos, casa desta e outras obras de Plínio Marcos, autor de “Uma Reportagem Maldita”. Do livro de 76, nasce Querô, o órfão Jerônimo, vítima de maus tratos da mãe adotiva e que se joga ao mundo pra se virar como pode.

Direto de direita

Quando a FEBEM entra na história, sentimos vergonha de pensar que a vida de Piedade foi uma merda. Fudido, fudido mesmo, é o Querô! Inconformado e orgulhoso, resiste a entrar “no esquema da casa” e paga um preço alto por isso. Vale agradecer ao diretor por nos quebrar o nariz, mas não arrancar os dentes como, por um instante, pairou o medo de que fizesse.

Aqui aparece o cuidado na adaptação para o cinema. O trabalho feito com 40 garotos de áreas pobres da Baixada Santista deu ao longa dois presentes. O roteiro pensado em aberto permitiu a interação e discussão entre os atores, de modo que a linguagem marginal fosse atualizada, sem soar teatral em momento algum. A outra grande conquista desse trabalho atende pelo nome de Maxwell Nascimento.

Cruzado de esquerda

A seleção encontrou não apenas um ator para o papel principal, mas um talento que o Festival de Cinema de Brasília reconheceu em sua premiação. Maxwell sustenta a projeção na dor e no ódio que Querô sente do mundo, e é certamente o que de melhor o filme tem a oferecer.

Revide

Carlos Cortez sai-se bem na sua estréia com a ficção, mas comete alguns deslizes. As seqüências no culto evangélico são completamente alienígenas ao restante do longa, mesmo que sirvam como incipiente processo de transformação de Querô em Jerônimo novamente. Por ser um filme de pancadas fortes, outros momentos de respiro acabam parecendo mornos demais também.

Golpe de Misericórdia

Plínio Marcos diz que se seus textos continuam atuais, é porque o Brasil não evoluiu. Ele está certo. O que torna este um filme obrigatório é o realismo assustador com que retrata a desgraça de tantos na vida miserável de um.

A vida pode ser uma merda.

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