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O Desatino da Rapaziada

17.01.07

por Rodrigo Campanella

Batismo de Sangue

(Brasil/França, 2007)

Dir.: Helvécio Ratton
Elenco: Daniel de Oliveira, Caio Blat, Léo Quintão, Odilon Esteves, Cássio Gabus Mendes, Ângelo Antônio, Marku Ribas

Princípio Ativo:
uma história e uma ferida na mão

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“O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” é o tipo certo de filme para não se esquecer, porque deixa entalada na garganta e doendo na língua a questão de como é que se agradece a quem carregou a tocha quando o mundo parou. A quem seguiu sonhando, e tomou a rasteira no final, quando a maioria simplesmente dormiu. Pergunta isso com um afeto dolorido, pesado, tedioso, mas que não se amarga – ao contrário – e sem cair num esquematismo que transforma em figuras de face única histórias de carne e osso.

Mesmo que “O Ano” não possua um Adrian Cooper na direção de arte ou um Lauro Escorel na fotografia (uma dupla tão afinada em construir imagens que faz qualquer corte da montagem parecer deslocado e pobre), é um filme feliz em suas escolhas. Nas imagens de Mauro, abandonado sem querer pelo mundo que conhecia, o silêncio fala. Em cinema, dizem por aí que o que cala, o implícito, fala muito mais alto do que o que é exibido, devassado e esquadrinhado pela câmera. Acredita quem tem juízo.

O perigo de acreditar no exibicionismo é cair no círculo de um “Jogos Mortais” ou de um “Albergue”, onde a violência social serve como desculpa para um filme pornográfico que não constrói pensamento algum, na cabeça ou no peito. Você agarra os braços da poltrona no cinema, contorce os pés e sai achando a violência cotidiana mais suportável, por comparação direta.

Também por sorte, “O Ano” não se baseia em um relato pessoal, carregado de sombras históricas e feridas sempre abertas, para construir uma história que não faz jus à sua fonte, sob a mão mais do que pesada do diretor. Na paralela, um “Zuzu Angel” ou “Batismo de Sangue” guardam o mérito, inegável, de resgatar histórias com as quais permanecemos historicamente em dívida. Mesmo errando como arte, são passos adiante para encarar o espelho nacional.

Os dias de Mauro no Bom Retiro paulista passeiam por uma incompletude que incomoda. Mas são exatamente o tédio, a solidão e a sensação de algo errado que percorrem aqueles dias. Nesse casamento de forma e narrativa o filme se encontra, mesmo quando exagera na doçura. E sabe que cinema não pode ser novela radiofônica.

O travo entala na garganta e só vai explodir quando Céu , a cantora, começa os versos da “Tropicália”, lá no fim dos créditos. Sem querer ser um épico histórico ou o documento de um tempo, “O Ano” ultrapassa um país que ainda chama piamente ‘Golpe’ de ‘Revolução’ pelo caminho sincero e crítico da....infância.

Na Ditadura, só valia a missa rezada pela farda

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