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Joel Zito - sem noção e as filhas do vento atacam a minoria

27.02.05

por Renata Lobato

Filhas do Vento

(Brasil, 2004)

Direção: Joel Zito Araújo
Elenco: Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton Gonçalves, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Thalma de Freitas, Rocco Pitanga, Jonas Bloch

Princípio Ativo:
Intolerância

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“Minoria”. E agora começo a escrever sobre o filme de Joel Zito Araújo, o aclamado Filhas do Vento. De Gramado à Tiradentes lá está o diretor e sua trupe, encabeçada por um elenco de globais ou não, premiados ou não - como Ruth de Souza, Léa Garcia, Thaís Araújo e Milton Gonçalves - contando uma história que poderia ser interpretada por qualquer elenco, mas que, neste caso, é assumida somente por atores negros. A minoria ficaria a cargo da participação especial de Jonas Bloch, que deve ter tido alguma responsabilidade na produção.

A questão é que estamos diante de um filme que classificaríamos como bom - fotografia boa, elenco satisfatório, enredo interessante, a maravilhosa locação de Lavras Novas – mas que assumiu uma proporção de excelente, em virtude do politicamente correto.

O enredo: um lugarejo, um pai viúvo, duas filhas, um engano e dois destinos diferentes. Neste universo, dois tipos de mulheres: as que ficam e se entregam à tradição; e as Filhas do Vento, que vão embora, para nunca mais voltar. As vidas seguem, os destinos se cruzam. É o típico filme que se imagina o fim, sinalizado desde o inicio.

Poderia-se falar da dualidade feminina – tradicional e moderna - e da possibilidade de convivência e felicidade em ambas escolhas. Mas sou tentada, e não estou só, a abordar a questão do negro, num cinema que exclui, que demarca lugares sociais, e que dificulta a introdução do bom ator. E assim voltamos à famosa questão Tostines: “o negro é pobre na ficção por causa da realidade, ou é pobre na realidade por causa da ficção?”

Não acredito que a solução do diretor tenha sido interessante. Na verdade, assumir um extremo é romper com a idéia do café com leite no cinema, onde a mistura apura o gosto da resistência. Minoria por minoria, a verdade é que se diretores negros privilegiarem os seus, e brancos idem, caminharemos para o dia em que o público também fará este tipo de escolha estúpida, esquecendo que, no intermédio, há o que ainda é minoria: o cinema de qualidade.

Neste ponto, curvo-me à justa homenagem ao diretor Walter Lima Júnior na Mostra de Tiradentes, que em filmes insanos como o Delírio da Lira, alia um arco-íris de atores e cinema de qualidade. Sua obra buscaria o espaço de um outro cinema, onde comentários perpassassem a linguagem, a técnica, o fazer cinematográfico, além do Brasil paralelo, onde os pobres e ricos mergulhavam, de alguma forma, na mesma merda. Mas “Filhas do Vento” tem sido política e questionavelmente bem premiado, e no repúdio a esta condição, pelo jeito, sou minoria.

Elenco de primeira arrebanha prêmios pelo Brasil

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