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Mutações

09.02.07

por Rodrigo Campanella

Antônia

(Brasil, 2006)

Dir.: Tata Amaral
Elenco: Negra Li, Leila Moreno, Quelynah, Cindy, Thaíde, Sandra de Sá

Princípio Ativo:
vontade

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“Antônia” não é só um filme, mas sim a parte-cinema de uma plataforma de lançamento multimídia, capitaneada pela diretora Tata Amaral. Já frutificou em uma elogiada série de TV, um cd e contratos com gravadora para suas cantoras-protagonistas. Mas em “Antônia, o filme” essa sensação de projeto amplo cai como uma ducha fria.

O tráfego ali é, com muita boa vontade e resultados nem tanto, entre um mundo de pequenas sinceridades pessoais e imagens em mutação.

1. Dos 20 x 10.4 metros às 29 polegadas

Por exigências de contrato (leia-se Globo), a série de TV estreou antes do filme. Falar de um sem mencionar o outro passou a ser inevitável, mas não no sentido mesquinho que põe telinha e sala escura para se estapearem. É na televisão que o projeto de ficção de “Antônia” se completa. O que não quer dizer que o filme é pequeno para o cinema mas, pelo contrário, é a série que parece enorme para o que normalmente cabe na tela da nossa TV.

2. Da alma aos ossos

Nas quatro garotas de periferia paulista (Preta, Lena, Barbarah, Mayah) que se unem para arriscar o canto como ganha-vida, estão condensados todos os pequenos sonhos, traições e alegrias que erguem um mundo real naquele lugar à margem, muito mais que só uma barreira urbana. Tata tem a sensibilidade para mostrar que a periferia tem suas próprias paisagens belas.

O efeito colateral de “Antônia” no cinema é a impressão de que como filme falta algo - e não é a participação do espectador. Parece um filme dirigido em tom intimista e pessoal sobre um tema social e extrovertido, mesmo quando filma a privacidade. Mas enquanto uma obra intimista usa os vazios para preencher seu protagonista, “Antônia” se enche de buracos porque quer contar tantas histórias e o tempo é curto.

3. A cidade, de Deus aos Homens

O crítico Pedro Butcher define “Cidade dos Homens” como “um mea-culpa dos produtores de “Cidade de Deus”. A vida de Laranjinha e Acerola realmente tem menos cheiro de estudo de caso do que o longa, e é nessa trilha que “Antônia” acha seu fio. Mas a opção por atores não profissionais aqui (mesma de CdD) e por filmar em locação resvala num excesso de otimismo. As interpretações às vezes soam perdidas no roteiro, os figurantes se espantam com a câmera. Em um filme que possui tantas não-ficções acertadas (cantoras reais, atores da periferia, locações reais, histórias inspiradas em depoimentos), a falta de ficção nas imagens parece apenas descuidada. O que não tira a honra de “Antônia”, o projeto e a ousadia, mas limita bastante o filme.

"Oh, Antônia brilha / Antônia sou eu / Antônia é você":
você vai passar o dia seguinte cantando essa música.

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