Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Escolha seu número

22.03.07

por Rodrigo Campanella

Número 23

(The Number 23, EUA, 2007)

Dir.: Joel Schumacher
Elenco: Jim Carrey, Virginia Madsen, Logan Lerman, Danny Huston, Michelle Arthur

Princípio Ativo:
eixo quebrado

receite essa matéria para um amigo

A ficha às vezes cai nas horas mais imprevisíveis. Se você nunca entendeu o que alguém quer dizer quando comenta que um filme não tem vida ou é completamente mecânico, “Número 23” é uma espécie de manual explicativo sobre o assunto.

A sensação quando sobem os créditos é de que teria sido mais interessante sair da sala depois da metade do filme e depois perguntar a um amigo que tivesse assistido como é o desfecho da coisa. Porque gera curiosidade saber como termina, mas escolher ouvir isso pela boca de outra pessoa gera um encontro e um assunto para bate-papo. Mais calor humano do que o filme poderia dar mesmo se tivesse quatro horas.

A obsessão do homem da carrocinha Walter Sparrow gira no eixo de um romance sobre um detetive que se descobre cercado/amaldiçoado pelo número 23. A identificação é imediata (ambos são Jim Carrey), e Sparrow desmorona diante dos muitos 23 que passa a procurar (para achar) a seu redor. A ‘matemática criativa’ usada para alcançar 23 em tudo tem toque involuntário de comédia, assim como o detetive. Por outro lado, o homem comum Sparrow é a prova de que Carrey pode render muito mais em velocidade reduzida.

A história tem alguma criatividade, mas atulhada de soluções mecânicas para ligar uma cena na outra, sem traço de bom senso ou conhecimento sobre como um cotidiano é arquitetado, fazendo banalidade do absurdo. Como um toque de realidade mágica nunca comparece, fica estacionada entre uma coisa e outra. É um trem enguiçado na paisagem.

Quem entrar no cinema buscando Jim Carrey ou um enigma para coçar, de leve, o cocuruto, deve sair sem querer de volta a grana do ingresso. Fosse um caso de Scotland Yard, o jogo de tabuleiro, “Número 23” seria visto como divertido, apesar de todo furado. É obra de Joel Schumacher, um mais que estranho ‘autor’ de Hollywood, que fez nome filmando paranóias reprimidas dos US & A (8 Milímetros, Por um Fio, Tempo de Matar). Como contador de histórias parece rabiscar contos pré-adolescentes, alguns eficazes.

No caso de “23” e de seu primo-irmão de estréia na semana, “Atirador”, o cinema fica em terceiro plano para que algumas coisas possam ser berradas para uma platéia aparentemente surda. Apesar de terem objetivo tão definido quanto um videogame de fase, os dois parecem patinar no próprio eixo, como se as imagens conduzissem mas não necessariamente saíssem do lugar. O final de cada um confirma essa tese, mais conseqüência de um estado de espírito pós 11/09 do que vontade artística. Encaixa bem se o seu gosto tem esse número.

O homem comum, a mulher comum, um mundo comum. Desmoronando.

» leia/escreva comentários (11)