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Lição torta

28.03.07

por Mariana Souto

Pro Dia Nascer Feliz

(Brasil, 2006)

Dir.: João Jardim

Princípio Ativo:
um mimeógrafo defeituoso

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A lição

João Jardim (Janela da Alma) escolhe como tema a educação no Brasil. Entrevista alunos, professores, apresenta estatísticas, faz bonitos passeios dentro das escolas usando steadycam. Usa técnicas interessantes de “fotografia em movimento”, filmando pessoas e famílias paradas olhando para a câmera, mas que reforçam a idéia de retrato. Avança em questões como a falta de estrutura, mau comportamento dos alunos, faltas dos professores, falhas de comunicação e as alternativas possíveis de alguns “personagens” – Deivison se salva pela banda, Valéria pela poesia e Keila pelo fanzine.

Mas se documentários estão longe de serem o retrato da realidade, “Pro Dia Nascer Feliz” está há anos-luz, apesar de não se admitir como obra parcial que é.

Os depoimentos deixam entrever visões perspicazes dos entrevistados, alguns submetidos a péssimas condições. Valéria, habitante de Manari – PE, mostra sua produção intelectual e talento poético, mas enfrenta a descrença dos professores, que não avaliam seus trabalhos por não acreditarem ser ela a autora. O Brasil anda tão desesperançado que quando algo bonito e promissor surge só pode ser brincadeira ou malandragem.

O esquecimento

Estão ali os fatos que estamos cansados de saber mas, como continuamos na mesma, precisamos ouvir sempre: a educação está sucateada, talentos são desperdiçados, alunos e professores se vêem como inimigos e a violência é o modo de resolver problemas de muita gente. Entretanto, Jardim não precisava usar um perfeito exemplar clínico de perversão para causar impacto com a agressividade dos jovens. Uma menina ri de ter matado a outra a facadas, por motivos estúpidos.

O recorte da realidade feito pelo diretor é ainda mais parcial ao retratar 5 ou 6 escolas pobres e apenas uma de classe alta. Nessa pequena amostra de colégios particulares, a personagem principal, Ciça, é uma menina que vive de estudar e chora pela atenção dos pais e dos meninos, ao passo que os representantes da periferia são quase sempre jovens resilientes, talentosos e fortes. Com essa contraposição, Jardim insinua futilidade e reclamações de barriga cheia da elite e exalta os bons alunos que não possuem boas condições - o que muitas vezes acontece, mas não é regra.

A sugestão do filme é que a maioria dos problemas da educação está na falta de recursos, mas muito do que se vê na tela acontece também nas escolas privadas. O problema da educação no Brasil, mais do que o dinheiro, é a própria educação.

Ouvi gente dizendo que esse filme deveria ser passado nas escolas. Se isso acontecer, tomara que seja com as devidas ressalvas.

E então, olhar pra onde?

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