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A letra desgovernada da canção

16.04.07

por Rodrigo Ortega

Faichecleres - A Calçada da Fama

(Outracoisa, 2007)

Top 3: "Alice D", "Desajustado", "O otário"

Princípio Ativo:
Desajuste

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Prazer, meu nome é Alice D. Meu caso é o seguinte: tenho uma obsessiva compulsão pelos Beatles. Já fui internada, mas fugi pela janela do banheiro. Nasci em uma música que tem meu nome, cantada por uns gaúchos que também são catarinenses, mas moram no Paraná, os Faichecleres. Eles já tocaram só de fraldas em um festival, então não podem questionar minha sanidade. Nem podem me prender como uma mera personagem dentro da sua música, por isso eu vim aqui narrar essas coisas para vocês.

O que eu queria mesmo era falar sobre os reis do iê-iê-iê, mas parece que nesse site estranho eles querem saber sobre o lugar de onde vim, Calçada da Fama. Não é uma rua bonita frequentada por celebridades, e sim o segundo disco dos Faichecleres. Ele fica logo depois de Indecente, Imoral e Sem Vergonha – basta seguir a via principal e diminuir um pouco a velocidade. É uma região mais calma do que a primeira, mas não espere nada decente, moral ou com vergonha.

Sexo e bebida ainda são os assuntos preferidos nas onze faixas aqui da vizinhança. Quando você passar por “Diabo a quatro” vai sentir de longe o cheiro de cachaça. Se a gente medir pelos riffs rrrock desta música, de “Calçada da Fama” ou de “O que eu bem entender”, parece que Curitiba está mais perto da tosqueira de Goiânia que da chinelagem de Porto Alegre.

Mas você nem precisa ouvir um ‘bah” para descobrir de onde eles são. Ninguém consegue reproduzir a jovem guarda de maneira tão depravada como os roqueiros do Sul. A “Garotinha da Mamãe” faz coisas que eu e John ficamos corados só de ouvir. Em “O otário”, os Faichecleres chegam ao seu máximo de romantismo e sensibilidade: “Meu Deus do céu / Como ela pôde ser tão cruel / Sem coração / Mas mesmo assim ainda me mata de tesão”.

Mas a principal referência, tanto para as músicas quanto para os terninhos, ainda é dos modelos orignais ingleses. Para não dizerem que eu sou obsessiva por você-sabe-quem, achei legal a versão de "Love me ‘till the sun shines", dos Kinks, que virou “Só te quero na minha cama”. Acho que os Faichecleres sabem atualizar os clássicos, e não há uma declaração de amor mais atual do que “faço qualquer merda por você”, de “Desajustado”.

Modéstia à parte, a melhor faixa é a minha, mas não pense que vim aqui contar vantagem. Até porque, sinceramente, acho que eu merecia mais atenção na mixagem. As pessoas podem dizer que isso é preciosismo de ouvinte obsessivo por Beatles e derivados. Mas se você chegou até o final desse texto e se interessa por essas bandas estranhas, não deve concordar com “as pessoas”. Prazer, eu sou Alice D e sou igual a você.

Papais

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