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Cinema negro

24.06.07

por Daniel Oliveira

Baixio das bestas

(Brasil, 2006)

Dir.: Cláudio Assis
Elenco: Mariah Teixeira, Caio Blat, Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Marcélia Cartaxo, Hermila Guedes, Fernando Teixeira

Princípio Ativo:
escuridão

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Não há sentimentos bons em “Baixio das bestas”. Seu Heitor explora sexualmente a neta Auxiliadora (que também é sua filha) e vive à custa de seu trabalho. Ela, em silêncio, odeia o algoz e, buscando uma saída, seduz Maninho, mas ele só faz encher a cara e amaldiçoar reciprocamente o velho.

A suposta virgindade de Auxiliadora atrai a sede insaciável de destruição do playboy Cícero (Blat). Ele odeia a mãe, que o trata como uma decepção, e vive em pé de guerra com os amigos liderados por Everardo (Nachtergaele), na repressão de uma homossexualidade latente. Juntos, eles violentam as prostitutas Ceiça, Dora e Bela (Paes) – sendo usados por essa última para concretizar o ódio pela segunda e para realizar suas perversões, no que é desprezada pela primeira.

O diretor Cláudio Assis filma isso que Heitor chama de “a bosta do mundo” (ou um mundo de bosta?). Sua câmera, ainda se movimentando com a fluidez de um Altman, aprendeu a parar. E nesses quadros fixos, aprendeu também a se distanciar numa auto-indulgência estética e fria. Ao contrário de “Amarelo Manga”, a câmera não se envolve com os personagens, não dança com eles – ela os observa impassível, indiferente, irresponsável.

Esse quadro todo explode no fim em um festival de estupros (belamente iluminados), violência (nas atuações viscerais), humilhação física e psicológica (perfeitamente dirigidas). Na ausência de bons sentimentos e com uma câmera esteticamente fria, resta ao público ser a última peça do quebra-cabeça-monstro, dando a ele sentido, e se sentir bem consigo mesmo na sua ânsia de vômito (tão humana e compassiva). Assis, Deus de seu universo, quer incendiá-lo como a Sodoma e Gomorra, mas o faz somente no fogo do canavial, metaforicamente, como um bom artista – se é que isso existe.

Só o que há em “Baixio” é a aridez do Nordeste, que anula a sensualidade dos corpos tornando-a repulsiva, e a escuridão. Escuridão do filtro usado por Walter Carvalho para abafar a luz do sol escaldante e da sala de cinema freqüentada pelos playboys. A única luz realmente clara do filme é aquela no rosto de Everardo, quando ele afirma que “no cinema se pode fazer de tudo”. Mas no cinema se faz, no cinema se paga. Se “Irreversível”, filme-primo deste, gritava que o tempo destrói tudo, “Baixio das bestas” grita que não destrói nada, pois não há mais nada a destruir – só escuridão, podridão e merda, numa aceitação, tão inerte quanto seus quadros fixos, disfarçada de cinema-indignação.

O pior de tudo? Os bóias-frias continuam no caminhão para o trabalho depois de cada degradação orquestrada por Assis. O mundo não pára.

Nachtergaele em seu momento Zé do Caixão

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