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Janela do olhar

27.06.07

por Mariana Souto

Marcas da vida

(Red Road, Reino Unido/Dinamarca, 2006)

Dir.: Andrea Arnold
Elenco: Kate Dickie, Tony Curran, Martin Compston, Nathalie Press, Andrew Armour

Princípio Ativo:
o olhar e a palavra

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A contemporaneidade está em pauta em “Marcas da Vida”. A vigilância, o olhar e a imagem estão em discussão nesse filme metalingüístico que parece um “Janela Indiscreta” da pós-modernidade, remetendo também ao recente “Caché”.

Jackie trabalha como vigilante policial assistindo a imagens de câmeras espalhadas em uma região de Glasgow. Em dado momento, reconhece um homem de seu passado, ex-presidiário, e passa a seguí-lo, não só pelas gravações, mas aproximando-se dele. Isso é toda a informação que o público recebe durante mais de uma hora de filme, além de indícios soltos como a aliança na mão de Jackie, uma foto de criança e a menção a um enterro. Em “Marcas da Vida”, o que parece valer é a imagem e, para isso, a diretora Andrea Arnold brinca de esconde-esconde com o público.

Só a protagonista sabe o que se passa e age de acordo com motivações ignoradas pelo espectador, que tenta montar um filme em sua cabeça, assim como Jackie edita a realidade através da seleção de cenas em suas telinhas. No seu cotidiano vazio, ela vive através da imagem alheia, como se acompanhasse capítulos de uma novela ou do Big Brother.

Discute-se o poder de ilusão da imagem e sua relação com o real, já que o próprio filme insinua coisas que não correspondem à sua realidade. Jackie suspeita das imagens do ex-presidiário e acaba perdendo um crime de garotas de 14 anos, mais que suspeitas, que esfaqueiam uma a outra. A própria Jackie forja uma situação e a encena para a câmera. Além da sugestão visual, a paranóia moderna é determinante para “Marcas da Vida”.

Com a discussão de tantos temas relevantes, os personagens parecem perder importância para o espectador, que não os conhece e não consegue criar laços, desenvolvendo uma identificação. Talvez por isso, o filme soe indigesto em alguns momentos. Entretanto o que falta de carisma aos personagens, aparece na fotografia e na trilha sonora - qualquer filme que use bem Radiohead merece crédito de simpatia. Não só o tema e a música, como a linguagem cinematográfica utilizam do contemporâneo, com traços de clipe e estética moderna.

Se antes parece que vale só a imagem, no desfecho vê-se a importância da palavra. A trama só se resolve – e o filme também – quando as coisas são finalmente ditas, desembuchadas. A elaboração do luto da personagem só se dá pela lavação de roupa suja. E o que parecia um filme contido e nórdico começa a virar melodrama mexicano*.

*Não digo no mau sentido. É bacana ver o povo frio finalmente se expressar.

Mentes perigosas: Jackie é uma mulher sob influência.

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