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Só linhas tortas

03.08.07

por Rodrigo Campanella

A Volta do Todo Poderoso

(Evan Almighty, Estados Unidos, 2007)

Dir.: Tom Shadyac
Elenco: Steve Carell, Morgan Freeman, Lauren Graham, John Goodman, Wanda Sykes

Princípio Ativo:
adestramento generalizado

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Com meia hora de “A Volta do Todo Poderoso” vem a certeza de que essa é uma continuação de “Dr. Dolittle”, aquele filme onde Eddie Murphy era a árvore na qual todos os animais do mundo queriam sombra. Mas com a franquia do veterinário em baixa, essa foi a solução provável: pegaram um comediante em subida na carreira (Steve Carell) que já tinha sido coadjuvante num filme bom de bilheteria (O Todo Poderoso). Para cobrir os furos, acrescentaram Morgan Freeman como Deus exigindo que o agora senador Evan Baxter (Carell) construa uma arca de Noé com a esposa (Graham) e os filhos.

Com quarenta e cinco minutos vem a pior revelação: assim como “Luzes do Além”, outra continuação-molotov em cartaz, essa é a segunda parte piorada de um filme que já não era grande coisa. Do primeiro, somente Deus e Evan sobrevivem para continuar a história. Em “O Todo Poderoso” eram eles que rendiam algumas risadas, apoiando ou apoiados em Jim Carrey. Agora, com um roteiro que entrega quase todo o trabalho aos adestradores de animais, não resta muito para fazer. E dá tão errado que as piadas com Baxter precisam ser seguidas pelos comentários ‘engraçados’ da secretária ‘maluquinha’ do senador, como se alguém estivesse tentando arrancar um riso com boticão.

Com uma hora e quinze você começa a pensar em outras coisas e chega à conclusão que Freeman está lá para faturar seus trocados, exibir profundidade facial e emprestar credibilidade colocando o nome no cartaz. E que estão engessando Steve Carell num tipo “americano médio quarentão travado”, cuja graça de ser virgem com quarenta anos estava num texto divertido e no ar de improviso entre amigos. Nesse “A Volta...” o único improviso parece ser a dancinha dos bastidores nos créditos finais, para confirmar que fazer o filme provavelmente foi mais divertido do que assistir.

E é com uma hora e meia, quando tudo acaba, que dá para perceber como um bom texto e um ator podendo não levar ele a sério fazem toda a diferença. Era o caso de Lauren Graham, a Lorelai em “Gilmore Girls”, e o do próprio Steve Carell, em “The Office”. Nem a ironia própria dos dois consegue tirar graça do absurdo desse filme, porque o papo aqui é fazer comédia bobinha com a austeridade de quem lida com fissão nuclear. Tudo é editado para não fazer cosquinha, todas as piadas são medidas na régua, auto-ironia é algo que nem foi pensado, a mensagem no final é estupidamente edificante. Alguém na direção achou que era Billy Wilder, e que Billy Wilder era assim. Impressionante como as pessoas se enganam.

E esse é o melhor ângulo.

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