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Vida de inseto

28.09.07

por Rodrigo Campanella

Possuídos

(Bug, EUA, 2006)

Dir.: William Friedkin
Elenco: Ashley Judd, Michael Shannon, Harry Connick Jr., Brian F. O’Byrne

Princípio Ativo:
perspectiva

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“Possuídos” é um dos melhores choques elétricos que o cinema comercial oferece nesse ano. Vem disfarçado no Brasil, usando nome de suspense com o Denzel Washington (igualzinho, “Possuídos”) e com cartaz genérico de moça indefesa presa em casa com alguma assombração. No original, o nome é “Bug” – inseto, bicho, defeito. Mas traduzir como “Possuídos” é uma ironia certeira, mesmo que talvez sem querer.

A moça é Agnes, e sua cela voluntária é o quarto barato de hotel onde ela se entoca, fugindo da vida. É o tipo de mulher que aceitaria se alguém lhe oferecesse a oportunidade de ser arrancada do próprio corpo e cabeça. As tais assombrações só começam a ficar claras quando Peter, que Agnes acabou de conhecer a contragosto, vai ficando para dormir no quartinho, noite após noite. Ele é, também, um zumbi por dentro e até o fim do filme vai parecer com um.

A paranóia dele – “sou um ex-soldado usado como cobaia e hoje carrego insetos assassinos no sangue” – é o catalisador que aciona os fantasmas interiores de Agnes, que ela devolve como mais dependência e incentivo aos demônios de Peter. É um filme de terror da perspectiva do monstro.

Ainda que ‘paranóia’ seja o espinho aparente desse filme de extremos, o toque de mestre parece estar nas pontas do filme – a primeira e a última imagens, nos créditos de abertura e finais. Durante a trama nós somos levados a confirmar que os fantasmas/insetos não estão ali. Mas, quando a última imagem chega, surge outra dúvida – e quem garante que nós “vimos” o que “realmente” aconteceu? Dois paranóicos num quarto vedado por plástico, um “doutor Docinho” (Sweet) que aparece do nada, o ex-marido espancador que volta bem nesses dias. Através da alucinação de quem nós vimos essa história, afinal?

“Possuídos” se alimenta de tensão, da paranóia moderna, da insegurança e ódio com o corpo. Os psicopatas “de terror” do cinemão atual são sustos de Branca de Neve perto desses aqui, seres humanos em estado além da compreensão. Mas é um filme de William Friedkin, dos bons, e isso quer dizer que fica aquém do que poderia ser (Viver e Morrer em LA, O Exorcista). Os ataques epiléticos que tomam o quarto (sim, o quarto) parecem ser o estado natural do lugar e surgem apenas economicamente, talvez para não arrebentar a clientela que paga os ingressos.

E eu ainda me descobria durante a sessão evitando e bloqueando pensamentos, cortando o pavio de paranóias – o que só aumenta a sensação de quanto esse filme está longe de ser “um terror”. Amplificação parece ser a especialidade dele.


Mais pílulas:
Espíritos – A Morte está ao seu lado
Abismo do medo
A Chave-Mestra
Vozes do Além
O Labirinto do Fauno
Querô

Mais uma ilusão: entre eles não há nenhuma luz.

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