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Sinta os bons hits do verão

04.10.07

por Rodrigo Ortega

Pitty - {Des} Concerto Ao Vivo

(Deckdisc, 2007)

Top 3: “Pulsos”, “Equalize”, “No escuro”.

Princípio Ativo:
Queens of Hawaii

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Um baixo com a distorção no talo repete freneticamente uma ou duas notas, primeiro sozinho, depois junto com o vocal, até a explosão de acordes robóticos graves e notinhas agudas de guitarra. É difícil ouvir a versão de “Memórias” neste disco ao vivo da Pitty e não ligá-la na memória ao som de “Feel the good hit of the summer” do Queens of the Stone Age, aquela música do “nicotine, valium, vicodin, marijuana, ecstasy and alcohol”.

Usar guitarras pesadas como suplemento nutricional de um Toddynho de morango vendido para adolescentes, uma fórmula não muito original, faz parte inegavelmente de grande parte do trabalho da Pitty. Afinal, referências a bandas stoner não escondem o fato de que cigarrinhos de chocolate, Dramin, Sorine, Chá de Camomila, Bala Chita e refri são produtos muito mais utilizados pelos consumidores de {Des} Concerto do que aqueles descritos em “Feel the good hit of the summer”.

Até aí nenhuma novidade, mesmo porque a banda de Josh Homme (assim como Muse e Mars Volta) é uma influência confessa pela baiana desde os dois álbuns anteriores, especialmente Anacrônico (2005). O problema é que também não dá pra rotular tudo nesse disco novo como “F-F-F-F-Farinha Láctea”. A letra de uma das duas músicas novas, “Pulsos”, por exemplo, causa um inesperado nó na garganta: “E um dia decidiu, quis terminar / Só mais um gole e duas linhas horizontais”.

A referência nada sutil a drogas e suicídio me fez pensar na hora em minha prima de 16 anos que guarda na gaveta uma boneca velha e suja de vinho – ela conta que sua amiga ganhou a boneca de presente da Pitty depois de um show em Belo Horizonte. “Gente, isso não é letra pra Lina ouvir”, foi o que eu pensei automaticamente, alguns minutos antes de balançar a cabeça feliz ao som de “C-C-C-C-Cocaine”, a original.

Talvez as balançadas na cabeça tenham colocado os parafusos de volta no lugar e eu deixei logo de ser um velho reacionário defensor dos “Parental Advisories”. Muito mais prejudicial na formação do caráter da minha prima é o indício de “Engenheirização” do trabalho da Pitty, evidente nos jogos de palavras do título do álbum e da segunda música inédita: “Malditos cromossomos / malditos como somos”.

Os clichês, porém, são compensados por trabalhos cuidadosos como o belo arranjo de “Equalize" e os gritos nirvanescos de "No escuro". “Foram só três músicas e eu estou cantando cada uma delas como se o mundo fosse se acabar depois da próxima”, diz Pitty no meio do disco. Apesar de eu (e a própria cantora) saber que ela se vende como um brinquedo torto, em meio a doces e laticínios Pitty entrega sons e palavras que ninguém parece interessado em oferecer à minha prima. Só não se esqueça de escovar os dentes depois, Lina.

Com muitas linhas horizontais e ela viraria Pitty Doherty (Foto: Érika Hofman)

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