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De passagem

10.10.07

por Rodrigo Campanella

Novo Mundo

(Nuovomondo, Itália/Alemanha/França, 2006)

Dir.: Emanuele Crialese
Elenco: Vincenzo Amato, Francesco Casisa, Charlotte Gainsbourg, Filippo Pucillo

Princípio Ativo:
a grande ponte

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Difícil achar um título que case tão especialmente com um filme. Não se trata do “Novo Mundo” em português, mas da versão americana do nome: “Golden Door”. Soa pomposo de primeira (“porta dourada”) mas conforme o filme passa (o tempo passa) vai adquirindo o brilho de ouro velho, ainda precioso mas de uma luz mais sólida, temperada, mais digna.

Se a primeira cena é uma espécie de chave capaz de revelar o filme, bom sinal. No começo de “Novo Mundo” Salvattore Mancuso e o filho escalam algo que dá para descrever como uma lavoura de rochas em terras italianas, para atingir uma espécie de altar onde imploram ao céu por um sinal: ir ou não tentar a vida na América?. A resposta vem, em forma de um punhado de fotos prometendo prosperidade – fotos com imagens falseadas.

E a maçaneta gira. “Golden Door” é a viagem de uma hora e tanto por dentro dessa porta, nova e já fartamente enferrujada, esperançosa mas pronta a desabar um batente pesado sobre quem passa. É uma passagem cega – o outro lado, Nova Iorque, não é visto. E o que provavelmente foi motivado por economia de produção (o custo de construir mais um cenário gigantesco) acaba virando um dos grandes versos na poesia do filme.

O ponto máximo a que se chega é a gigantesca hospedaria que serve para triar quem entra ou não no “Novo Mundo”. Os vidros do lugar são, não por acaso, opacos – você ainda não chegou. Antes de entrar é preciso verificar se os imigrantes não têm a “mente frouxa” ou algum “defeito’ que possa “contaminar” a sociedade da nova terra. É impressionante a descrição detalhada da travessia para os Estados Unidos; e também como as raízes podres da cultura americana provavelmente já estavam na semente do país.

Na maior parte, “Golden Door” é um filme realista, e cheio de um afeto doce, humorado e árido que, em cinema, dá para chamar de “italiano”. Italiano não só o afeto, mas o filme todo, com suas pequenas tragédias anunciadas e inevitáveis, seus encontros aleatórios, seu punhado constante de fé.

Só que, repentinamente, a imagem se torna surreal e já não estamos vendo aquela gente de fora, mas olhando o mundo filtrado através dos sonhos e da alma deles. A última imagem em especial, um longo nado rumo à terra prometida, é um resumo magnífico do significado da aventura. E talvez você ali, como eu, acabe lembrando que no fundo está assistindo a história dos seus mortos, aqueles que vieram antes para “fazer a América”.

‘Mérica, mérica, mérica...

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