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Nascidos para matar (e morrer)

11.10.07

por Daniel Oliveira

Tropa de elite

(Brasil, 2007)

Dir.: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Milhem Cortaz, Fernanda Machado, Maria Ribeiro

Princípio Ativo:
guerra

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Segundo o dicionário Inglês-Português de Amadeu Marques & David Draper, hopeless tem várias traduções.

Inútil
é a narração em off do Capitão Nascimento, que abre e acompanha “Tropa de Elite” quase inteiramente. A proposta é penetrar no universo do Bope através da visão dele e do estudo dos aspirantes Netto (Junqueira) e Matias (Ramiro) – similar a “Os bons companheiros” e “Cassino”.

Só que José Padilha não é Scorsese, Moura não é De Niro e o roteirista Braulio Mantovani já fez melhor. A locução repete o que a imagem mostra – o policial recebe dinheiro do traficante na favela e Nascimento começa “no Brasil, policial...” para explicar o suborno que nós já sacamos. Ela se mostra claramente uma legenda para o público internacional, o mesmo que aclamou “Cidade de Deus” e que “Tropa” mira com seu armamento de guerra. Não é um crime, mas compromete essa primeira parte, que soa um pouco arrastada, e pode fazer o filme parecer um pouco

Perdido
no seu mosaico social de tantos personagens e situações. Ele não está. José Padilha alicerça bem sua visão de um cenário muito complexo e, mesmo na crítica aos cursos de Humanas, que ele tem pouco tempo para elaborar, seu argumento é pertinente e se encaixa no todo.

O diretor comprova objetividade na cena em que Matias tira satisfações com um colega em uma ‘manifestação de paz’ – é uma atitude difícil de julgar porque ele está certo, mas perde a razão ao partir para a violência. Ela sintetiza bem o olhar do filme sobre esses policiais. Um olhar que triunfa no retrato

Desesperado
do conjunto, e não do indivíduo. Acompanhado pelos longos planos do ótimo Lula Carvalho, Padilha mostra uma preparação, não para a polícia, mas para a guerra. É quando o filme engrena, a partir do momento em que os aspirantes iniciam o treinamento, em seqüências que vão do riso incrédulo (a “parte teórica” do curso é a melhor ‘piada’ do filme) ao encolhimento na poltrona com os gritos do Capitão à la “Nascido para matar”.

É nesse erro de princípio, em que o policial é treinado para matar (afinal, ele vai para a guerra) ao invés de proteger, que “Tropa” mostra a que veio, e não nos espetaculares efeitos da “equipe de Falcão negro em perigo”. E é aí que reconhecemos o mesmo tom

Desesperançado
de “Ônibus 174”, em que Padilha vai apontando os problemas, retirando as soluções e deixa você sozinho, sem estômago e com aquela sensação de “algo deu errado” ao sair da sessão. E em um país em que a guerra civil é a protagonista de jornais, estudos e ficção, e um filme tem que se fazer valer de um crime para atingir a maioria da população, algo deu muito errado. Reset, alguém?

Mais pílulas:
Os infiltrados
Querô
Caminho para Guantánamo
Cidade dos homens

Tropa = (Nascido para matar + Doom + José Padilha) x Cidade de Deus /pirataria.

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