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Um homem descongela

06.12.07

por Rodrigo Campanella

Meu melhor amigo

(Mon Meilleur Ami, França, 2006)

Dir.: Patrice Leconte
Elenco: Daniel Auteuil, Dany Boon, Julie Gayet, Julie Durand

Princípio Ativo:
poeira espanada

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-5º

As maiores companhias de François não falam, não andam e, principalmente, não respiram. Dono de um antiquário, sua vida se resume às peças que compra para revender e ao estéril apartamento que ele chama de casa, apesar da aparência impessoal de quarto de hotel. Num jantar ameno entre colegas, a sócia lança na mesa a verdade: o máximo do máximo de proximidade com outros seres humanos que ele possui está sentado ali, ao redor dele. E a maioria não simpatiza lá muito com François, mal sabe quem ele é, e vice-versa.

0º

Cabeça-dura, ele cisma que tem amizades, muitas. E aposta com a sócia um vaso grego de duzentos mil euros que havia acabado de arrematar em um leilão: até o fim do mês, vai apresentar a ela seu ‘melhor amigo’. A aposta e o vaso são as engrenagens-mestras que tocam o roteiro em frente e não o deixam sair do trilho – o que impede o filme tanto de descarrilar quanto de explorar outras paisagens. Mas é Bruno, o taxista boa-praça que passa pelo caminho de François, que compõe junto com o antiquarista o verdadeiro motor do filme.

70º

“Meu melhor amigo” não tenta esconder o quadrado a que se limita. Seus personagens são tipos, suas situações são um tanto esquemáticas, o raciocínio é linear, com (A) fatalmente levando até (B). Não é um defeito e sim uma opção, que parece tão clara para quem assiste quanto provavelmente estava para quem co-escreveu e dirigiu, o diretor Patrice Leconte.

Só que essas paredes imaginárias do quadrado formam um gatilho para chegar direta e rapidamente no público, criando um modelo simplificado da vida e fazendo risadas brotarem dali, numa sucessão de pequenas armadilhas do cotidiano. E durante a tentativa de François de aprender com Bruno como ‘fazer amigos’ (e influenciar pessoas), qualquer desvio inesperado nesse trajeto tão pré-programado da comédia de costumes tem um impacto multiplicado em quem assiste.

90º

O que sai inocentemente da boca e dos atos dos personagens são pequenas brasas, atiradas por todo canto, e sem deixar de divertir. Enquanto François lentamente descongela nesse filme só aparentemente bobo, a dificuldade do afeto de cada dia está servida à mesa, na forma de um bolo com rosto de palhaço.

Tudo isso só se alcança porque Daniel Auteuil e Dany Boon, dois grandes atores, trazem François e Bruno à vida. Os tipos encarnados pelos dois tem nuances e camadas escondidas que muitos ‘personagens complexos’ de big produções nem chegam perto. São seres indefiníveis num único adjetivo, mas que atuam como tipos boa parte do tempo. Enfim, humanos.

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