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Os covardes também amam

18.12.07

por Daniel Oliveira

O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford

(The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, EUA, 2007)

Dir.: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell

Princípio Ativo:
o tempo e o vento

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Jesse James foi assassinado pelo covarde Robert Ford em 1882 – esse é o fato já estabelecido no título e logo no início do filme. Como ele, tudo o que é pura descrição, informação histórica ou mera superfície é entregue sem rodeios pela narração em off de “O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford”.

Porque não é sobre os fatos, imagens, ou nada de concreto que o diretor Andrew Dominik quer elaborar. O que interessa ao seu longa é etéreo, intangível, implícito.

Mais do que um simples perfil jornalístico de James e Ford, “O assassinato...” tenta materializar os fantasmas que assombravam os dois homens. Na atuação de Brad Pitt, ao mesmo tempo em que desperta temor e respeito, James é dono de um magnetismo que fascina todos que o cercam, como o garoto popular da escola ou o astro de Hollywood. Mesmo assim, ele desconfia de todos, nunca se sente seguro e se assusta com o homem que se tornou e as brutalidades de que é capaz.

Casey Affleck constrói Ford, desde a voz fanha e o jeito desengonçado e carente, como um garoto que se acredita “destinado a grandes feitos”, mas se vê diminuído e ignorado por todos. Admira a fama de James, ao mesmo tempo em que a inveja, no limite constante entre amor e ódio. É o geek que, ao buscar reconhecimento de seu ídolo, encontra sarcasmo e humilhação.

E na linguagem do faroeste clássico, Dominik e seu diretor de fotografia Roger Deakins encontram uma metáfora para esses fantasmas na natureza - na obsessão do longa pelo vento. Ele não pode ser visto per se, mas se faz presente o tempo todo – ao soprar os campos de trigo e as nuvens – marcando o ritmo das cenas e dos próprios personagens.

É o vento também que cadencia o suspense pelo tal assassinato. Ainda que conhecido desde o início, Dominik consegue torná-lo tão intrigante e complexo, que é impossível tirar os olhos da tela durante as quase três horas de filme – tanto pela bela fotografia, quanto pelo desafio de encontrar a chave que decifre o mistério por trás das motivações dos personagens.

E o segredo d’O assassinato...” é não determinar qual é essa chave. Dominik aponta várias possibilidades que explicariam o assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford – desde um amor não-correspondido do último, até uma sugestão da atração de James pelo suicídio, numa cena belíssima entre Pitt e Rockwell – mas não afirma nenhuma delas como ‘a’ verdadeira. Pelo contrário, ele convida o público a experienciar a história de seus dois personagens como uma tragédia grega, em que a única redenção é a morte. E a grande beleza está na experiência, e não no mero decifrar do mistério.

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