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Verona Maré

11.04.08

por Cedê Silva

Maré, nossa história de amor

(Brasil, 2007)

Dir.: Lúcia Murat
Elenco: Cristina Lago, Vinicius D’ Black, Marisa Orth, Babu Santanta, Malu Galli

Princípio Ativo:
Shakespeare

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Entram Sansão e Gregório,

e o cenário da Maré, familiar ao espectador de “Cidade de Deus”. Os barracos sem reboco, as vielas, a galinha.

“Qual de todas vós se negará agora a dançar? Aquela que se fizer de delicada, jurarei que tem calos!” (Capuleto)

Uma longa seqüência, mais de dança do que musical, abre “Maré, Nossa História de Amor”. As - coreografias de hip-hop na favela dão um clima de videoclipe dos anos 80 à la Michael Jackson. Tudo parece meio fora de lugar, no início.

Em pouco tempo as coisas se ajustam. O baile funk no qual Jonathan (Vinicius D’ Black, em excelente performance, inclusive como cantor) e Analídia (Cristina Lago, dona de um rebolado, ahn, contagiante) se conhecem é mais natural, carioca, crível - e ainda põe o enredo para rodar. Com o tempo, o espectador se acostuma e as seqüências musicais posteriores soam mais naturais.

“(...) eu teria encurtado minha história, pois acabara de chegar à sua profundidade, e não tinha intenção de tratar do assunto por mais tempo” (Mercúcio)

O que a maior parte das cenas de dança não chega a fazer, porém, é avançar o enredo. Verdade seja dita, uma delas é perdoável: uma belíssima seqüência na Linha Vermelha, em que dezenas de bailarinos dançam em cima de carros ao som de Minha Alma, do Rappa, interpretada pelo casal protagonista.

Por outro lado, há o absolutamente dispensável: o momento Jairo Bouer quando a professora de dança Fernanda (Marisa Orth) põe a galera para falar suas opiniões sobre amor e congêneres. E todas as intervenções do Nação Maré, trio de rap que faz às vezes de coro da “peça” e a entrecorta em vários momentos.

“Como se atreve o miserável a vir até aqui, encoberto com uma grotesca face, para escarnecer e ridicularizar nossa solenidade?” (Teobaldo)

Fernanda é o olhar do espectador de classe média. É ela quem nos conduz por esse mundo tão estranho, apesar de não estar presente nos momentos mais graves de racismo do filme - como o cartaz que exibe “200% negro” (sim, 200) ou quando a mãe de Analídia a chama de “branquela azeda”. São indicativos de que, no combate ao racismo, vozes extremistas podem falar mais alto que as moderadas e lidar com um problema criando outro.

“E eu, por haver tolerado vossas discórdias, perdi, também, dois parentes! Todos fomos punidos!” (Príncipe)

Um samba de Walter Alfaiate, O Mundo Já se Acabou, acompanha uma bem-feita inversão de parte do fim do Romeu e Julieta original. Lá, após a tragédia, impõe-se a paz com a chegada do Leviatã, o Príncipe de Verona. Já por aqui, mesmo após muitos Joãos Hélios, Analídias e Jonathans, ainda estamos esperando nosso salvador.


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O elenco de Maré pedindo paz com voz.

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