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Mente adentro

02.07.08

por Daniel Oliveira

O escafandro e a borboleta

(Le scaphandre et le papillon, França/EUA, 2007)

Dir.: Julian Schnabel
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Olatz López Garmendia, Max Von Sydow, Isaach De Bankolé

Princípio Ativo:
imagin-ação

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Inércia não é o oposto de movimento, e sim de ação. Jean-Dominique Bauby (Amalric) estava aprisionado com uma mente funcional em um corpo paralisado – a síndrome locked-in, causada por um acidente cérebro-vascular. Mas não estava inerte.

O único movimento que lhe restou foi o piscar do olho esquerdo e foi isso que ele usou para realizar aquilo que o tornou editor da Elle francesa: expressar em palavras uma visão de mundo. Mais que simplesmente escrever, Bauby não foi inutilizado pelo acidente devido à sua capacidade de imaginar. De enxergar além do que está na sua frente e transmitir isso ao seu interlocutor.

E é exatamente essa capacidade que o diretor/artista Julian Schnabel traduz em “O escafandro e a borboleta”. O filme se estrutura no contraste entre os planos semi-estáticos do ponto de vista do protagonista e os belos travellings ilustrando seus devaneios. O contraste entre uma mente livre e um corpo preso, cujo grande mérito é despertar menos pena do que admiração.

Levam quase 20 minutos para que se veja na tela outra coisa que não o ponto de vista subjetivo de um convalescente Bauby. E não é por acaso. Schnabel quer deixar clara desde o começo sua intenção: transportar o público para dentro da mente do protagonista. É através de seus comentários, seu sarcasmo, seu desencantamento inicial e sua determinação que passamos a ver o mundo.

Não é tão bonito quanto é desconfortável. e até exasperante em alguns momentos. Schnabel não quer fazer chorar. Seu filme é uma ode ao legado de Bauby e ao livro que ele ditou, literalmente, num piscar de olho (e do qual o roteiro é adaptado).

Para isso, “O escafandro e a borboleta” conta ainda com um ótimo (e belíssimo) elenco interpretando o harém de Bauby, incitando sua mente libidinosa ao mesmo tempo em que luta para despertar seu corpo. Marie-Josée Croze (Invasões Bárbaras) é a ortofonista que lhe apresenta o mecanismo de comunicação com o piscar do olho. A linda Olatz López Garmendia é a fisioterapeuta religiosa que tortura Bauby com sua língua. E Emmanuelle Seigner (Piaf) é a mãe dos filhos do protagonista, que se dedica a ele mesmo sabendo de sua paixão pela nova namorada.

Mas o filme é de Schnabel. Da mesma forma que Jean-Dominique fez de sua experiência literatura, o diretor a transforma em cinema. Com a ajuda da fotografia de Janusz Kaminski e da música arrebatadora de Paul Cantelon, o cineasta mostra que, assim como Bauby provou que imaginação pode ser mais que simplesmente a soma de imagem e ação, o cinema pode ser algo mais que um simples espelho do que nossos olhos enxergam no mundo.

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O mundo, o homem e a mente brilhante.

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