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Cadela sem dono (e sem rumo)

18.07.08

por Mariana Souto

Nome próprio

(Brasil, 2007)

Dir.: Murilo Salles
Elenco: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Rosane Mulholland, Juliano Cazarré, Munir Kannan, Reginaldo Faidi, Alex Didier

Princípio Ativo:
Camila, mil mulheres e uma

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Como retratar a realidade de um personagem irritante sem fazer com que o filme o seja? Ter como protagonista um personagem de atitudes condenáveis socialmente é uma situação delicada. Esse personagem, de características incômodas, pode tornar o filme em si incômodo pela franqueza com que é retratado. Assim acontece com Camila, um retrato baseado em textos de blog e livros de Clarah Averbuck, escritora muito popular na internet.

“Nome Próprio” e Camila se confundem. Nome Próprio é Camila. Nome Próprio poderia ser várias meninas. Apesar de centrar-se em uma personagem (extrema, mas não inverossímil), o longa de Murilo Salles parece retratar um estilo de vida. É possível perceber o cuidado em buscar a imagem fiel de parte de uma geração através do vocabulário, da arte, do figurino cuidadosamente desleixado e da maquiagem decadente.

A forte personagem de Leandra Leal se encontra sempre em movimento, deslocamento, ainda que estagnada moral e financeiramente. Suas andanças ajudam-na a esquecer a rotina, o futuro. Ela se joga, portanto. Joga-se para o mundo, para o nada ou o que para ela se esvazie de sentido – uma bebida, um corpo masculino ou feminino.

A necessidade de Camila é o conforto emocional, alguém que a acolha. Sua escrita a distancia do seu eu que sofre. A dualidade presente na Camila virtual e na Camila viva - como no plano final em que a personagem se duplica – sustenta a impressão de estar vivo proporcionado pelo registro. Através da escrita, ela tem um vínculo com o mundo e, mesmo que uma avalanche de idéias e emoções a deixe cindida em duas, ela continua viva.

Camila é uma menina tresloucada, histérica e extremamente passional, cheia de características desagradáveis. “Nome Próprio” gira em torno dela. O desconforto causado no público seria evocado pelo filme, pelo modo como é feito, ou pela visão, ao longo de duas horas sem pausa, de uma geração aparentemente perdida e desequilibrada? O que incomoda é o resultado da obra ou o objeto?

No filme, não cabe a discussão sobre a qualidade do texto como literatura. Se é superficial e conturbado, assim também é a personagem. Embora o excesso de imagens de palavras, ainda que coerente, tire um pouco o espaço de interpretação do espectador. Muitas vezes as palavras se perdem como conteúdo e não são mais do que pura estratégia visual que, usada constantemente, torna-se cansativa.

Murilo Salles não faz concessões, nem ameniza sua personagem para o público. E constrói um filme sobre a possibilidade de sublimação pela arte, em meio às loucuras e atropelos da vida - ou de si mesmo.

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