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Vidas em Jogo

27.10.08

por Renné França

Violência gratuita

(Funny games U.S., EUA/França/UK/Áustria/Alemanha/Itália, 2007)

Dir.: Michael Haneke
Elenco: Michael Pitt, Naomi Watts, Tim Roth, Brady Corbet, Devon Gearhart

Princípio Ativo:
a cerimônia e seu mestre

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A certa altura de “Violência Gratuita”, depois de ter apostado com suas vítimas que elas morrerão até as nove horas da manhã, Paul (Michael Pitt) vira-se para a câmera e fala diretamente para o espectador: “E o que você acha? Acha que eles têm alguma chance? Você está do lado deles, não está? Em quem vai apostar?”. A cena, além de surpreendente, é também reveladora. Paul não é apenas um personagem, ele é o condutor da história, o narrador que sabe todo o enredo - e mais, conhece os gostos do espectador.

Paul sabe que está sendo observado e joga o tempo inteiro com sua platéia. Ele e o amigo Peter (Brady Corbet) são dois jovens excessivamente educados que invadem a casa de uma família, fazendo-os de refém e torturando-os com jogos violentos. O motivo da “brincadeira” nunca é explicado - e pouco importa: “Violência Gratuita” é aquela cena sangrenta sem sentido se divertindo consigo mesma. Assumindo-se como ficção, a obra desperta nossas expectativas sobre tudo o que deveria acontecer em um filme desse tipo somente para subvertê-las. É pesado, tenso e carregado de um humor negro assustador.

Cortesia do diretor Michael Haneke (Caché), que já havia contado a mesma história em 1997. Aqui, ele refilma quadro a quadro sua obra e mantém a qualidade intacta de sua fábula crítica da violência como diversão. Paul e Peter somos nós, espectadores atentos (sedentos?) ao sangue que jorra e aos gritos da mocinha seminua. Ao se deliciar com o sofrimento do casal George (Tim Roth) e Anna (Naomi Watts) ao lado do filho pequeno, os dois sádicos emulam toda uma platéia de Jogos Mortais, Albergues e Zé do Caixão.

Mas Haneke quer ir além e provar que não é preciso a violência explícita para chocar. E ele consegue. “Violência Gratuita” não é torture porn – pelo contrário, a câmera sempre se afasta nos momentos mais gráficos, preferindo filmar outros personagens. E dá náuseas exatamente por deixar tudo por conta da nossa imaginação (a única cena que foge à regra se revela uma brincadeira com a platéia e provoca uma autocrítica do quão sádicos podemos ser).

“Queremos entreter nossa audiência, certo? Mostrar a eles o que sabemos fazer”. Paul sabe o que os espectadores da violência esperam e, como bom cicerone, vai levar o entretenimento até o fim. “Violência Gratuita” desmonta o gênero de dentro para fora, gritando que na verdade somos todos manipulados e que tudo não passa de ficção. Ok, mensagem compreendida. Mas é difícil ficar indiferente. Principalmente ao seu filme, Sr. Haneke.

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Paul & Peter: Filhos da (ma)mãe.

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