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Mudar ou...

18.03.09

por Leonardo Rodrigues

U2 - No Line on the Horizon

(2009)

Top 3: "Stand Up Comedy", "Magnificent" e "Cedars Of Lebanon"

Princípio Ativo:
Busca pela sinceridade

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“Chega uma hora em que é preciso mudar ou.... mudar de vez.” Fora os riscos de se recorrer à dobra pílulas/taças de vinho em finais de mundiais, a filosofia “vanuccesca” tem muito a ensinar. Para o U2, de tempos em tempos, ela é praticamente uma questão de ordem. Com todos os méritos, a banda que transformou a crueza do pós-punk em carreata messiânica (pós) moderna chega ao terceiro trabalho da década sob um clima de leveza. Talvez pelo efeito terapêutico de permanecer tanto tempo longe da moenda, parcialmente livre de certas pressões da roda do mercado.

Se em How to Dismantle an Atomic Bomb, de 2004, o expediente trouxe tons rubros, “No Line on the Horizon” revela perspectivas ligeiramente afáveis e bem pastéis. A prometida investida experimental - expectativa criada em torno das produções de Brian Eno, Daniel Lanois e Steve Lillywhite, após sessões abortadas com Rick Rubin - definitivamente não foi concretizada. O rompimento, caso realmente exista, se faz muito mais nos diferentes caminhos para que o disco parece apontar. Percepção que ganha força pelo período intermitente que marcou as gravações.

Para os ouvidos acostumados à sonoridade “clássica” do grupo, especialmente ao que foi produzido na fase Achtung Bby e nos últimos trabalhos, músicas como “Unknown Caller” e “I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight” funcionam como adstringentes. Fáceis e elementares. Característica que, em grau variado, também abarca canções mais inspiradas, como as urgentes “Magnificent” e a faixa-título. A quem não vê problemas em se desprender de amarras estilísticas, há a riffeira "Get On Your Boots" (primeiro single), as quebras da “Stand Up Comedy” e “Fez - Being Born”. Meiuca que dá corpo e ajuda a ampliar o horizonte de expectativas.

E é justamente na oitava faixa que se estabelece a ponte para um dos vieses mais interessantes do álbum - e que poucas vezes é explorado o suficiente. A parte final é calma, instrospectiva e climática. Beirando o downtempo. Tem em “Breathe” e “Cedars Of Lebanon” belos exemplos do movimentos etéreos e envolventes, com intervenções “eletrônicas” muito bem sacadas, cortesia da cartilha “age” de Eno. Sucessos radiofônicos? Não. Tratados sobre verdades inconvenientes e pentelhas? Sem chance. Reverberação estilística? Moderadamente.

Ajustando estritamente o necessário, o que temos é somente o U2. O de sempre, da busca crônica e incansável pela sinceridade. A mesma que serve de zona limítrofe entre as justificativas do Pelé e Edson da vez: Bono e a banda. Para alguns, pode funcionar como retrato fiel de qualidade e evolução musical. Para outros, como antídoto contra os wannabes que figuram pelo pop britânico nos (pelo menos) últimos dez anos. Ou, mais ceticamente, pode ser o discurso de quem já não tem o que acrescentar. É só escolher de que lado estar. Mas dá para fazer melhor: apertar o botão e se concentrar em apenas ouvir um bom disco.

A chapinha sincera do Bono

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