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Merdas acontecem. E acontecem de novo.

12.04.09

por Taís Oliveira

Rio congelado

(Frozen river, EUA, 2008)

Dir.: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott, James Reilly, Michael O'Keefe

Princípio Ativo:
mães sem dinheiro

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Uma mulher chorando. Close nas mãos com unhas sujas que seguram um cigarro. Logo na primeira cena, “Rio Congelado” já diz a que veio: mostrar lágrimas, as razões daquelas lágrimas e das que virão a seguir.

A mulher chorando é Ray (Melissa Leo, em atuação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), abandonada pelo marido viciado em jogo, sem dinheiro e com dois filhos para criar. Na busca pelo fujão, ela conhece a mohawk Lila, com quem passa a transportar imigrantes ilegais pela fronteira Canadá/EUA em troca de um bom dinheiro. O filme é como o rio congelado que as personagens têm de atravessar de carro: sempre tenso, na iminência da quebra (real e metafórica) do gelo.

O roteiro explicita a todo momento a situação precária da família de Ray e, mesmo assim, deixa brecha para questionamentos. Serão uma casa nova com banheira, uma TV e um Hot Wheels tão necessários assim? Mesmo na dureza fria e penetrante da fotografia, que corta tanto aqueles personagens quanto o público, percebe-se ali o império do ‘sonho americano’ – e não é demais se perguntar o quão patético ele soa nas condições que o filme apresenta.

A preocupação exagerada com as questões financeiras mostra a instabilidade e as falhas de Ray, uma mulher que tenta fazer o melhor que pode - ou que sabe. Poucas vezes ela demonstra uma preocupação com os efeitos psicológicos do abandono do pai, por exemplo. Talvez por isso, o caso de Lila chame a atenção do espectador: ela precisa de óculos, de emprego fixo e de amadurecimento para criar o filho, não do dinheiro guardado na embalagem de batata.

Mesmo se justificando mal, “Rio Congelado” é envolvente e consegue convencer o espectador do drama dessas duas mulheres, com o delicado desenvolvimento da amizade entre as duas. O filme grita a autoria de uma mulher – no caso, a diretora e roteirista Courtney Hunt - mais especificamente mãe, que compartilha o sofrimento e as dificuldades de se criar um filho e que é cúmplice de todos os atos desesperados.

Essa cumplicidade culmina em uma sensação de impunidade, e menos da redenção desejada pela diretora, no final. É como se as ações fossem não só justificáveis, mas também perdoáveis - como se elas já tivessem sofrido o suficiente e não precisassem de mais dor vinda da punição. Afinal, o que são quatro meses de prisão em troca de milhares de dólares e uma casa nova? O que é um pedido induzido de desculpas, em troca de um presente de Natal para o irmão pequeno? No final, todos são felizes para sempre, pois já cumpriram sua cota de tristeza.

Mais pílulas:
- O silêncio de Lorna
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Melissa Leo: dona-de-casa desesperada (on ice).

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