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Mercedes (ainda) mora aqui?

15.04.09

por Daniel Oliveira

Divã

(Brasil, 2009)

Dir.: José Alvarenga Jr.
Elenco: Lília Cabral, Alexandra Richter, José Mayer, Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond, Eduardo Lago, Paulo Gustavo, Elias Gleizer

Princípio Ativo:
mulheres de 40

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“Divã” tem um público alvo claro: mulheres na faixa dos 40 anos, muitas das quais já leram o livro e viram a peça, também protagonizada por Lília Cabral, que deram origem ao filme. É uma geração que conseguiu expressivo sucesso profissional, ao mesmo tempo constituindo família – e apesar (ou acima) de tudo, ainda conquistou um tempo para pensar na própria felicidade.

Assim como elas, a protagonista Mercedes se divide entre a profissional bem sucedida, a pintora das horas vagas, a mãe-esposa cumpridora dos deveres e a péssima cozinheira. E não há nada de errado com elas, todas parecem felizes. Mas Mercedes sente que não conhece... Mercedes – e não sabe se ela está feliz (culpe Freud, a pós-modernidade...).

Caso o público que se identifica com esse quadro compareça às salas de cinema (tenho uma tia que é a própria Mercedes e com certeza adoraria o filme), elas sairão satisfeitas e garantirão sucesso a “Divã”. O grande desafio do diretor José Alvarenga Jr. (Os normais), porém, era realizar um longa que dialogasse com outros espectadores, ou pelo menos os entretesse.

Não posso dizer que ele tenha conseguido. E nem é por falta de méritos seus. A direção de atores é decente e Alvarenga até tenta ‘cinematografar’, com uma edição entrecortada, a principal herança da peça: a protagonista se dirige ao público como se conversasse com seu terapeuta. Não funciona muito e essas cenas soam desconfortáveis – principalmente porque Lília exagera na atuação, como se quisesse que a pessoa na última fileira do teatro apreendesse as emoções de Mercedes.

Só que Cabral e Alvarenga estão longe de ser o maior problema de “Divã”. O principal destruidor de vários bons momentos do longa (e de 98% das produções da Globofilmes) é o diretor musical Guto Graça Mello - e seu talento em arruinar uma boa cena com a canção mais óbvia possível, piorada por uma versão farofa. Do didatismo pobre da “Camaleoa” de Caê logo no início, à versão horrenda de “Gostava tanto de você” que estraga uma sequência com Cabral e José Mayer, culminando na Ana-Carolina-trilha-de-novela do final, Mello é o próprio homem-chavão.

Isso, associado às piadas fracas e ao roteiro raso de Marcelo Saback (Sob nova direção), impede “Divã” de casar com mais naturalidade o drama e a comédia da história - como em um bom filme argentino, por exemplo. A seriedade do final faz falta no pastelão do começo e vice-versa.

Não que o público alvo vá notar isso – elas estarão muito ocupadas babando em Gianecchini e Cauã Reymond, ambos no papel da loira gostosa. Quem vai sofrer é o resto da audiência, sem muito o que fazer ali dentro.

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O personagem de Cauã frequenta raves gays. E escuta White Stripes no carro. E usa essas coisas na orelha. Sério.

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