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Perdido na tradução

21.05.09

por Mariana Marques

Budapeste

(Brasil/Hungria/Portugal, 2009)

Dir.: Walter Carvalho
Elenco: Leonardo Medeires, Gabriela Hámori, Giovanna Antonelli, András Balint, Andrea Balogh, Nicolau Breyner

Princípio Ativo:
palavras

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A ideia de filmar um livro como Budapeste é ousada. A obra de Chico Buarque, de 2003, é pura metalinguagem, de difícil transposição. O livro é uma ode às palavras, à linguagem, aos idiomas, ao ato – por diversas vezes pungente – de escrever. A insolência é responsabilidade do diretor Walter Carvalho. Acresente ainda o fato de “Budapeste” ser seu longa de estreia. Audacioso? Sim, mas Walter – felizmente – soube tratar a adaptação do livro à tela com certo esmero.

O protagonista da história é José Costa (Leonardo Medeiros), um ghost writer cansado de permancer no anonimato e sem paixão no casamento com a apresentadora de telejornal Vanda (Giovanna Antonelli), com quem vive no Rio de Janeiro. É um acaso que faz o escritor parar em Budapeste na primeira vez. Mas quando retorna à cidade, Costa conhece a húngara Kriska (Gabriela Hámori), por quem se apaixona. A vontade de ficar com ela, que acaba sendo também sua professora de húngaro, é o motivo para o brasileiro permanecer em Budapeste, onde assume a alcunha Zsoze Kosta.

A partir da mudança para a capital da Hungria, a trama se conduz pela ideia do simulacro, do duplo, com cruzamentos entre as vidas do escritor no Rio e em Budapeste. José-Zsoze são ghost writers – em português e húngaro, respectivamente -, têm ciúmes das companheiras, perdem-se em devaneios (o que torna necessária a narração em off, com grandes sacadas retiradas do livro).

Leonardo Medeiros está seguro, assim como o restante do elenco. A atriz húngara Gabriela Hámori é charmosa na medida essencial para conquistar logo na primeira aparição. O escritor, completamente Lost in translation, jamais resistiria a uma moça bonita de patins, na bonita cena em que ela diz “Vou te dar meu idioma”. As passagens relacionadas ao aprendizado da língua e que remetem a questões linguísticas, inerentes às questões culturais, sobressaem-se no longa.

Walter Carvalho faz jus a sua vasta experiência como diretor de fotografia (estão em seu currículo Lavoura Arcaica, Central do Brasil, Terra Estrangeira, dentre outros), principalmente ao retratar a amarela Budapeste, utilizando precisos planos longos. De resto, tem seu mérito por adaptar uma obra complicada para a tela grande, sem comprometer seu tom narrativo. A discussão – geralmente infundada - de comparar livro e filme torna-se um peso em “Budapeste”, justamente pela questão da metalinguagem. Ainda que o longa, em seu final, encontre uma solução para adaptar o fim do livro, não chega a ser impactante como a obra de Chico. Falta o suporte necessário às palavras.

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Prestes a trocar línguas.

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