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Morte por tédio

09.06.09

por Mariana Souto

A partida

(Okuribito, Japão, 2008)

Dir.: Takita Yojiro
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano

Princípio Ativo:
metáforas óbvias

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“A Partida” é mais uma prova de que Oscar não é mesmo parâmetro para nada. O azarão japonês ganhou o prêmio de melhor filme em língua estrangeira neste ano, mas não seria sequer cogitado na minha lista de top 30, já que se trata, infelizmente, de um filme medíocre - com m minúsculo.

Quando a orquestra de Tóquio em que Daigo toca violoncelo é encerrada, ele volta para sua cidade natal. Lá, consegue emprego preparando cadáveres para seus funerais e precisa enfrentar, além das suas próprias dificuldades, o preconceito das pessoas que não consideram sua atividade como um trabalho digno. Nesse caminho, obviamente, começa a apreciar o valor da própria vida.

A premissa poderia ser boa, mesmo considerando sua previsibilidade. Mas um olhar mais interessante ao tema do trabalho em torno da morte pode ser encontrado no clássico da Sessão da Tarde “Meu Primeiro Amor”. A condução de “A Partida” afunda o filme em clichês e busca a todo momento a emoção fácil do público. Há aqui um exagero típico do melodrama - o que por si só não é algo negativo, mas acaba se tornando, na medida em que é falso, não cabe no filme e não acha seu tom.

A trilha sonora é tão exagerada que se torna invasiva, inconveniente. Nas cenas dos rituais de preparação dos corpos, ela chega a ser desrespeitosa. Tanto é que a melhor cena do filme é a que o ritual é mostrado em silêncio completo. Nos momentos de comédia, a música incomoda novamente. Ela age como se não confiasse nem no poder da própria imagem, nem na capacidade cognitiva do espectador de compreender o que se passa na tela, enfatizando demais ou manipulando.

Acima de tudo, a trilha é simplesmente brega. E não é só ela. O diretor filma a orquestra de Daigo com ares de superprodução e movimentos de grua que causam estranhamento. Há uma cena, quase uma licença poética, em que vemos Daigo no alto de uma montanha, com uma bela paisagem ao fundo, sentado em uma singela cadeira e tocando seu violoncelo, enquanto a câmera gira ao seu redor. Nunca vi clipes do Kenny G., mas imagino que devam se parecer com isso.

Por fim, “A Partida” recorre a metáforas óbvias. Quando um animal morre, Daigo desiste. Quando um animal nada contra a corrente, Daigo resolve peitar a vida. O filme é permeado de sabedoria barata e só sobrevive graças à capacidade de gerar empatia com os personagens e a alguma emoção - ainda que esta se deva ao sentimentalismo e à abordagem da morte, tema evocativo por si só.

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Daigo: do Oscar para shows do Kenny G.

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